TEST

Drop Down MenusCSS Drop Down MenuPure CSS Dropdown Menu
Mostrando postagens com marcador Violência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Violência. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Redução da maioridade penal já; ou, se cada defensor dos coitadinhos adotasse um, não haveria tantos menores infratores barbarizando


Não é mais possível continuarmos a conviver com a terrível incoerência de que o guarda-roupas de 16/17 anos tem a faculdade de escolher o presidente da República, mas não sabe o que está fazendo quando trafica drogas, estupra, barbariza, mata, crimes que na melhor das hipóteses para as famílias de suas vítimas sedentas de justiça e no desatino da dor correspondem a meros três anos "apreendido".

Depois, os anjinhos de asas douradas recebem a chancela “apto para o convívio social”, com a ficha criminal limpa, ainda que em sua vida pregressa também tenham explodido bombas em jardins de infância.

O amável leitor, a graciosa leitora, que me desculpem a estultice, mas queria entender como é que a redução da maioridade penal, que me parece ser tema simpático à grossa maioria da população, e no caso específico talvez mais ainda entre os menos esclarecidos (os que mais votam no PT), seja tão veementemente rejeitada pelo partido.

Soa um tanto incoerente com a retórica populista, não é mesmo?

Não só o PT, justiça se lhe faça. Mas esta agremiação é atualmente sinônimo de poder praticamente absoluto, quase supremo, valendo dizer que, se quisesse, bastaria dar um peteleco no assunto "redução da maioridade penal" que ele deslocar-se-ia, num átimo, para o patamar inferior onde deveria estar.

Creio que nem os próprios jovens aceitem que um parrudão de 17 anos e 11 meses que mata, assombra, brutaliza, fique três anos, se tanto, recolhido…, digo, acolhido, até com a possibilidade de se hospedar em estabelecimento 5 estrelas na Suécia para se “ressocializar” às custas, inclusive, da sua própria vítima.

Sim, isso mesmo!

Lembram-se do garotinho João Hélio Fernandes, 6 anos, que foi arrastado pelas ruas de um subúrbio carioca preso pelo cinto de segurança, e um bandidão "dimenor" dentro do veículo dizia às gargalhadas para todos os passantes que aquele ser indefeso, esfolado cruelmente era o "judas" deles?

Não fosse a grita da imprensa, me lembro bem, o criminoso, protótipo da covardia, ficaria hospedado num estabelecimento 5 estrelas da Suécia à custa do seu, do meu, do nosso dinheiro, enquanto contribuintes, inclusive à custa dos próprios pais do menino barbaramente torturado até a morte!


Que diabos estará acontecendo, alguém pode explicar? É isso que chamam inferno?

Esses monstros incendeiam dentista, matam com uma frieza e crueldade espantosa como fizeram recentemente a Victor Hugo Deppman, estupram, vejam bem, até dentro de ônibus em movimento, e logo começam a chegar em defesa deles, aos borbotões, seus defensores apaixonados!

Por que não levam os bandidinhos para casa? Por que não os adotam, deixando-os conviverem com os filhos legítimos a fim de adquirirem, por osmose, os sentidos de humanidade, já que são bestas em forma humana?

Na infância e adolescência há uma sensibilidade maior às influências corruptoras criminais provenientes do seu meio ambiente.

Jovens e crianças estão mais sujeitos ao incitamento, persuasão à cumplicidade, ao encorajamento ou à ordem para o cometimento de crimes por parte de maiores.

Só não enxerga quem não quer que principalmente no crime organizado, a exploração de crianças e adolescentes se inicia cada vez mais cedo.

Não é mais do que hora, então, de rever todo esse velho, anacrônico, obsoleto, ultrapassado conceito de maioridade aos 18?

Basta de demagogia! Por que um jovem é investido como eleitor, presumivelmente equipado de lucidez e discernimento para decidir o futuro do país, porém inapto a responder pelos atos de selvageria?

Como deixá-lo cometer os delitos mais graves, hediondos, levando o paroxismo da dor aos entes queridos das vítimas, e nada lhe acontecer senão a simples sujeição às normas esdrúxulas e pusilânimes da legislação especial, valendo dizer, punição nenhuma?

Na Inglaterra, quem pratica crimes hediondos é apenado a partir dos 10 anos; nos Estados Unidos a coisa varia em 50 estados, mas basicamente são responsabilizados desde os 12; em Portugal, o cidadão pode ser condenado a partir dos 16 anos, o mesmo ocorrendo na Argentina, Espanha, Bélgica e Israel.

Na Alemanha, no Japão e na Itália, a partir dos 14 anos o rigor da lei se abate sobre todos, que no Egito é aos 15, na França, aos 13, na Escócia, aos 8, na África do Sul, aos 7 e até aos 6, como no México.

No Brasil, onde quem é brasileiro não parece ser Deus, mas seu rival milenar, garotão impiedoso, cínico, cruel, insensível, de caráter tão selvagem quanto o de uma cascavel pode cometer os gestos mais tresloucados sob o olhar contemplativo e embevecido da lei.

Não se pode fotografá-lo, nem algemá-lo, nem citar seu nome, nem conduzi-lo em camburões, muito menos confrontá-lo com a dor e o desespero de um pai e de uma mãe que perderam seus filhos violentamente na flor da idade, sepultando sonhos e esperanças pela falta de uma gota de misericórdia e clemência de um coração frio, pétreo, calculista!

Parece mais que o Estatuto da Criança e do Adolescente - o ECA, pretende com isso impedir que suas futuras vítimas, reconhecendo-o, tenham alguma chance de sobreviver!

Desculpem o trocadilho infame: Eca, que nojo!


Autor: José Henrique Vaillant

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Victor Hugo Deppman, 19 anos, está morto! Um facínora, o ECA, o Código Penal e a Constituição deram um tiro em sua cabeça! Assassino estará livre em 3 anos. Faz sentido? Ou: Cadê a Maria do Rosário?

Por Reinaldo Azevedo http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo

Victor Hugo Deppman tinha 19 anos. Cursava Rádio e TV na Faculdade Cásper Líbero e fazia estágio da Rede TV. 

Na terça-feira à noite, foi assaltado na porta do seu prédio, no bairro de Belém, Zona Leste de São Paulo.

Um dos bandidos lhe tomou o celular. Victor, com as mãos para o alto, não esboçou nenhuma reação.

Mesmo assim, o covarde disparou um tiro contra a sua cabeça. Victor está morto.

Victor tinha apenas 19 anos.


Victor era estudante de Rádio e TV.

Victor trabalhava.

Victor era filho.

Victor era namorado.

Victor agora só vive na memória dos que o amavam.

Victor já foi sepultado.

Victor não terá mais história porque alguém lhe deu um tiro na cabeça.
Tudo foi filmado pela câmera de segurança do prédio. A cena provoca revolta, asco. Às 11h desta quarta, a polícia identificou o assassino e foi à favela Nelson Cruz para prendê-lo. 

Conseguiu escapar, mas depois ligou para a mãe e se entregou. Apresentou-se à unidade da Fundação Casa do Brás. Tem 17 anos. 

Está, portanto, abrigado e protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, o tal ECA, que se transformou num verdadeiro valhacouto de assassinos. 

Mas Maria do Rosário, aquela ministra justa dos Direitos Humanos, não quer nem ouvir falar em mudá-lo. 

Os humanistas dos “assassinistas”, no geral, ficam arrepiados de indignação só em ouvir falar em baixar a maioridade penal para 16 anos.


O rapaz, agora assassino, já havia sido preso por roubo, mas libertado em seguida.


O que vai acontecer, agora, com o homicida de 17 anos? O ECA responde em seu Artigo 121. Leiam (em vermelho):

Art. 121. A internação constitui medida privativa da liberdade, sujeita aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.

§ 1º Será permitida a realização de atividades externas, a critério da equipe técnica da entidade, salvo expressa determinação judicial em contrário.

§ 2º A medida não comporta prazo determinado, devendo sua manutenção ser reavaliada, mediante decisão fundamentada, no máximo a cada seis meses.

§ 3º Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos.

§ 4º Atingido o limite estabelecido no parágrafo anterior, o adolescente deverá ser liberado, colocado em regime de semiliberdade ou de liberdade assistida.

Voltei
Para quem não entendeu direito: a pena possível para o monstro é de, NO MÁXIMO, três anos, entenderam? Mas não há um mínimo. Isso vai sendo reavaliado. 

Se o anjinho souber se comportar e se passar a ser um rapaz exemplar enquanto estiver internado na “unidade educacional”, pode ser solto antes. 

Se encontrar pela frente aquele padre esquisito, pode até ganhar uma Pajero de presente! A vida de Victor Hugo Deppman vale, NO MÁXIMO, uma reclusão de três anos.

Tem de mudar
É evidente que esse absurdo tem de acabar. O Brasil integra um grupo reduzido de países em que a maioridade penal se dá apenas aos 18 anos. 

O facínora que matou Deppman apontou contra a sua cabeça, conforme observei aqui num post de 14 de junho de 2012, mais do que um revólver. 

Ele estava armado também com o Artigo 121 do ECA e com os artigos 27 do Código Penal e 228 da Constituição, que garantem a inimputabilidade penal aos menores de 18 anos.

HÁ UM VERDADEIRO APARATO LEGAL QUE APONTA, ENTÃO, UMA ARMA CONTRA A NOSSA CABEÇA E GARANTE A IMPUNIDADE AO BANDIDO.

Deppman morreu. Seus amigos estão arrasados. Sua família passa por um sofrimento indizível, e nem mesmo conheceremos o nome do seu assassino. O ECA não deixa. Determina o seu Artigo 247:

Art. 247. Divulgar, total ou parcialmente, sem autorização devida, por qualquer meio de comunicação, nome, ato ou documento de procedimento policial, administrativo ou judicial relativo a criança ou adolescente a que se atribua ato infracional:

Pena – multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o dobro em caso de reincidência.


O estatuto era tão dedicado à defesa do adolescente ao qual se “atribui um ato infracional” que o parágrafo 2º do Artigo 247 trazia isto:

“Se o fato for praticado por órgão de imprensa ou emissora de rádio ou televisão, além da pena prevista neste artigo, a autoridade judiciária poderá determinar a apreensão da publicação ou a suspensão da programação da emissora até por dois dias, bem como da publicação do periódico até por dois números.”


Uma Ação Direita de Inconstitucionalidade acabou suprimindo essa aberração. Como se nota, até a livre circulação de ideias podia ser suprimida para proteger esta expressão da doçura adolescente que é o rapaz que matou Deppman.

Vigarice intelectual e moral
A vigarice intelectual e moral no Brasil decidiu fazer um pacto com o crime ao estabelecer a inimputabilidade penal aos menores de 18 anos. 

É como declarar um “pratique-se o crime” para os bandidos abaixo dessa idade. 

O canalha que matou Deppman pode votar. Pode eleger presidente da República. E também pode apontar uma arma para a nossa cabeça na certeza de que nada vai lhe acontecer. Caso mate e seja preso, logo estará de volta às ruas.

“Ah, como Reinaldo é reacionário! Só mesmo os reaças defendem essa tese”! Então vamos rever o limite da inimputabilidade em alguns dos países mais “reacionários” do planeta:

Sem idade mínima
— Luxemburgo

7 anos
— Austrália
— Irlanda

10 anos
— Nova Zelândia
— Grã-Bretanha

12 anos
— Canadá
— Espanha
— Israel
— Holanda
14 anos 
Alemanha
— Japão

15 anos
— Finlândia
— Suécia
— Dinamarca

16 anos
— Bélgica
— Chile
— Portugal

Até na querida (deles!!!) Cuba, a maioridade penal se dá aos 16 anos. Os países civilizados tendem a achar que o que determina a punição é a gravidade do crime e a consciência que o criminoso tem do ato praticado. 

É o que também acho. A Inglaterra julgou e condenou Jon Venables e Robert Thompson, os dois monstros então com 11 anos que, em 1993, sequestraram num shopping o bebê James Bulger, de 2. 

A vítima foi amarrada à linha do trem, depois de espancada e atingida por tijoladas. Os dois confessaram que queriam saber como era ver o corpo explodir quando o trem passasse por cima. Viram.

A Inglaterra pode julgar assassinos a partir dos 10 anos. Se condenados, dada a idade, a pena fica a cargo da Justiça. É um bom modelo. 

A dupla pegou 15 anos. Depois de idas e vindas, acabaram soltos em 2001, após a intervenção da Corte Europeia de Direitos Humanos. 

Por alguma razão, os que acabam se especializando nos tais “direitos humanos” parecem fatalmente atraídos pelos direitos de desumanos ou, sei lá, de inumanos. 

Os dois ganharam nova identidade, mas foram condenados a prestar contas à Justiça sobre os seus passos… pelo resto de suas miseráveis vidas!!! Em 2010, aos 28 anos, Venables voltou a ser preso por ter violado os termos do acordo.

As fotos dos monstrengos e de sua vítima correram o mundo.

No Brasil, bandido é bibelô. No fim das contas, há mais organizações empenhadas em garantir os direitos de quem viola a lei do que daqueles que têm seus direitos violados.

Quantas vezes vocês viram ONGs especializadas em direitos humanos falar em nome das garantias de que dispõem os homens comuns?

Sim, claro, claro! Eu sou um grande reacionário por escrever essas coisas, e reacionário deve ser o sistema penal de países “fascistas” como a Finlândia, a Suécia e a Dinamarca. 

Por lá, a inimputabilidade acaba aos 15 anos. Por lá, o assassino de Deppman ficaria um bom tempo sem ameaçar ou matar homens de bem.

PS — Outro dia, um desses vagabundos da subimprensa que se querem passar por progressistas ironizou o fato de eu empregar a velha expressão “homens de bem”. Emprego, sim, ora essa! E acho que o contrário dos “homens de bem” são os “homens do mal”.

PS2 – Em países em que menores de 18 anos são responsabilizados criminalmente, há instituições especiais que os abrigam; não ficam — nem devem ficar — em prisões para adultos. Uma coisa é certa: eles só não podem ficar nas ruas.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ignara burguesia. Ou, a cara da violência. Ou, se não corrigirem as injustiças, cercas eletrificadas e cães de guarda nada resolverão

A violência que invade os quintais da burguesia e das autoridades brasileiras deixando-as perplexas foi largamente anunciada durante muito tempo de opressão e de miséria. 

E a cena se repete. Sob a influência do estarrecimento, discutem-se atabalhoadamente medidas inócuas de combate ao crime, procuram-se fórmulas mirabolantes, pensamentos concatenam-se de maneira febril para encontrar a saída, mas a cegueira não permite admitir que só há uma única via, propalada quase sempre de forma hipócrita e dissimulada, que tem o nome de justiça social.

Prometida sempre, mas jamais parida, sua ausência sedimentou uma escalada tão brutal da violência que a ela já não mais fazem frente carros blindados, seguranças fisiculturistas armados até os dentes, cercas eletrificadas, ferozes cães de guarda e toda a parafernália eletrônica.


 
Emergindo dos guetos e da promiscuidade, cenários onde era restrita, a violência ganha o asfalto e se mobiliza contra as classes sociais que mais a fomentam, mesmo de forma inadvertida e não deliberada, uma espécie de criatura que se volta contra o criador.

A burguesia brasileira não é melhor nem pior que as de todo o mundo. É mais bronca e estúpida, porém, porque pela sensibilidade toldada custou a perceber os clamores a cada dia mais intensos da imensa parte excluída, o que inibiu a noção do grande perigo que a ronda diuturnamente. 

Em países mais desenvolvidos, a elite já percebeu de há muito que não é inteligente comer tudo e deixar os pobres famintos, e por conseguinte, raivosos. 

No Brasil, 10% da sociedade detêm 50% da renda nacional. Em nenhum país do mundo a concentração é tão brutal. Em Ruanda, por exemplo, os 10% mais ricos abiscoitam 25% e até na Tailândia o número não passa de 37%. 

A virulência das desigualdades sociais no Brasil é mais perversa quando se sabe que uma grande parcela dos miliardários adquiriu sua riqueza na "mão grande" mesmo, tirando literalmente a merenda da boca das crianças, o remédio da turba adoentada e todo e qualquer arremedo de avanço social.

Não é de estranhar, portanto, o nível astronômico da violência que nos assola. Muitos dos que estão na vivenda do crime o fazem por absoluta falta de opção, pela mera necessidade de cavar o seu sustento. 

Não há emprego no país, já que os investimentos jamais contemplam programas de desenvolvimento. Eles vão direto para a especulação, para o ganho fácil, em última análise bancado pela miséria. 

Os parcos recursos de tímidos programas dito sociais, invariavelmente vão engordar a conta bancária dos privilegiados. Jamais chegam a quem deles realmente necessita. 

Esse negócio de dar R$ 15 reais de esmola para o filho frequentar o colégio (e gerar publicidade estonteante do governo) é o cúmulo da desfaçatez!

Não haveria chance de o chefão do crime arregimentar jovens nas favelas se estas não existissem. 

Não haveria a necessidade de o cidadão obter seu sustento de forma criminosa se o pudesse fazer de forma legal. 

Claro que o crime sempre existiu e sempre existirá. Mas da forma como ocorre no Brasil e noutras repúblicas onde um único banqueiro abocanha os recursos que calaria a fome de milhões, não poderia ser mais ameno! 

Os recentes assaltos e sequestros sofridos por pessoas notórias, da fina flor social brasileira, e até a morte de personalidades são sinais apavorantes de que a ruptura de uma convivência harmoniosa está ocorrendo de forma medonha. 

A elite está percebendo, a fórceps, que a indignação pela estarrecedora injustiça social está pulando seus muros e exigindo retratação urgente, com a cara da violência fitando com rebeldia o tubo de ensaio grandemente responsável pelo exagero de sua escalada, instaurando o terror e a desgraça  sem piedade nem clemência.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em fevereiro/2001

terça-feira, 2 de abril de 2013

Apocalipse Now; ou, Deus, óh Deus, onde estás que não respondes?

11/9/2001 - Destroços do World Trade Center
Começo este amargurado artigo evocando Castro Alves em seu célebre poema Vozes D´África

“Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em que estrela tu te escondes, embuçado nos céus?”

O fatídico 11 de setembro jamais será esquecido, no qual tivemos a forte impressão de termos sido definitivamente desprezados pela Potestade. 

Será por todo o sempre, sem hiatos precedentes nem pósteros o capítulo mais tenebroso da história da humanidade. 

O furor do ódio materializado no paroxismo da insensatez e da loucura ficará impregnado nos recônditos mais longínquos deste nosso Planeta, que de um azul vistoso transformou-se rubro pelo mar de sangue de dezenas de milhares de inocentes, e da vergonha perante o Universo.



Foi uma tragédia largamente anunciada pelas injustiças sociais e divergências inconciliáveis que nos assolam. 

E outras virão porque chegamos a um tal nível de intolerância que qualquer gota transborda e causa efeitos devastadores, inacreditáveis. 

O fanatismo religioso, o preconceito racial, as diferenças políticas aquecem-se de forma incontrolável e chegam com facilidade ao ponto de ebulição. 

Tal e qual determinados tipos de bactérias e vírus, o ódio, este sentimento pernicioso, intrinsecamente humano, reproduz-se de várias formas e tem a faculdade incomum de dotar-se de criativos mecanismos de autopreservação, que tornam inúteis todas as tentativas de combatê-lo. 

E quando a ele se une inteligência, ousadia e o desprezo à própria vida, tudo parece irremediavelmente perdido.

O ódio racial, o ódio político, o religioso, o social, em todas as suas modalidades e diferentes formas e sutilezas é sempre mais destrutivo e gera-se na ignorância e no egoísmo desenfreado, que parecem ter atingido o ápice em nossa contemporaneidade. 

O crescimento inversamente proporcional de sensatez em relação a insanidade, de estadistas em relação a oportunistas políticos, de pastores em relação a vigaristas contribuem para a implementação deste subalterno sentido com toda a virulência que lhe é inerente.

A carnificina de Nova Iorque não supera em números absolutos as das grandes guerras e outros holocaustos humanos. 

Mas com certeza será lembrada como a mais chocante de todos os tempos pela desvairada devastação num único dia! 

E dela fica tão-somente a esperança de que não seja o início do fim, e para tanto façamos nossas as palavras do poeta:

“Não basta inda de dor, ó Deus terrível?! É, pois, teu peito eterno, inexaurível de vingança e rancor?”.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em setembro/2001

domingo, 31 de março de 2013

Amor mortífero

Suzane Richthofen
Ela era jovem, rica e bela. E não tem nada de paranoica ou débil mental. 

Mandou matar os pais por um louco amor, formando um drama real que supera as fictícias tragédias shakespearianas no ápice do delírio criador do dramaturgo imortal. 

Que motivo é esse? Como o amor pode ser tão mortífero? Na impossibilidade de uma análise psicológica de maior profundidade, resta a impressão de que a juventude da era moderna não tem limites para nada, e que numa sinistra ironia os pais de Suzane Richthofen tiveram de certa forma alguma culpa pela própria tragédia que os vitimou, já que vivenciaram e praticaram as regras de comportamento ditas modernas. 


O poder material destes trevosos tempos passaram a ser o único valor a nortear grande parcela de seres humanos. Conforto, consumismo, luxúria, hedonismo, peitos siliconizados, bundas proeminentes substituíram dignidade, moral e solidariedade. 



E esta cultura é transmitida dos pais para os filhos.


A evolução comportamental sempre foi vista com reserva. Como se escandalizaram, por exemplo, os pais da juventude transviada da década de 1960 com as barbas e os cabelos compridos de seus filhos, ausência de banho, sexo livre e a consagração da utopia de um mundo sem peste, fome e guerras! 

Mas aqueles pais, embora tivessem o dissabor de testemunhar a ruptura de um padrão estabelecido, o que é sempre traumático, tiveram atenuantes em relação aos de hoje porque os movimentos de outrora tinham o Paz e o Amor como abordagem principal. 

Atualmente imperam os pit bulls, os robôs sem alma e sem coração forjados nas academias de artes marciais, os pequenos tiranos que por terem tudo julgam que a tudo podem, até incendiar pessoas em praça pública, assassinar garçons, matar espectadores no cinema e assassinar os pais.

Os meios de comunicação, em especial a TV, têm enorme parcela no atual padrão estabelecido. 


A televisão brasileira vem formando uma geração com mutações genéticas que a torna dependente de violência e notícias ruins. 

A diversão dominical é exatamente achar graça na desgraça alheia, rir-se à toa de tombos e tropeções nas famosas pegadinhas. 

Os comunicadores, na mais desavergonhada ironia mostram que as pessoas que ainda têm bom coração e se dispõem a ajudar o próximo não passam de um bando de otários, que trocam pneus e são zombados, ajudam deficientes físicos que levantam e saem andando, e tantas outras situações criadas para expor as pessoas ao ridículo, destruindo o balizamento da ética e da razão.

O amor de Suzane é fruto dessa poção diabólica, cozida no caldeirão da permissividade, da dissimulação, da insensibilidade, da crueldade, da impiedade, da iniquidade. 

O ápice deste amor para quem nunca conheceu limites teria de ser lavrado num clima de erotização maior imaginado por suas mentes frívolas: o sacrifício dos próprios pais de um dos parceiros!

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em dezembro/2002

sábado, 30 de março de 2013

A banalidade do horror

World Trade Center
O 11 de setembro de 2001 ficará  registrado na história da humanidade como o dia mais negro e obscuro de todos os séculos e séculos. 

Os ataques terroristas aos centros nervosos do poderio militar e econômico da maior nação do Planeta foram atos inumanos apavorantes contra todos os povos, e o mundo não pode ter o infortúnio de ver isto novamente. 
  
 Naquele dia fatal os ataques  terroristas mais audaciosos e monstruosos ocasionaram um número horrendo de vidas inocentes perdidas, uma sucessão de pavor e devastação sem precedentes, dignos do mais delirante e inverossímil efeito especial de Hollywood. 

Como a mente humana pode produzir catástrofe deliberada com tamanha precisão e sincronismo! 



Os ataques ultrapassaram as fronteiras nacionais americanas para se constituírem desafios insolentes contra a totalidade da civilização, um duro questionamento aos sistemas de valor desta geração.  

Não foi uma tragédia  apenas para a América rica, foi uma tragédia internacional cujos desvairados desdobramentos trarão mais infortúnio e desespero para populações pobres e miseráveis que se multiplicam neste Planeta tão bonito e... amargurado.

Ditos e axiomas até antigos interpretavam o nível  de descobertas, de tecnologia, de desenvolvimento como armas que se voltariam contra o próprio homem. 

Nada tão verdadeiro! A morte já não é encarada com o mesmo grau de temor e respeito. Passa a fazer parte do cotidiano como mais uma mazela. 

E tem até certa lógica sua institucionalização quando comparada com as vítimas da fome e da injustiça. 

Ela (a morte) com certeza é melhor para aquelas mães etíopes cujas tetas sangram nas boquinhas de seus filhos esqueléticos, literalmente a pele e osso com os olhos recobertos pela mancha cinzenta do desespero pela fome. 

Com certeza é melhor para muitas populações de territórios cujos ventres inclusive geraram seus próprios genocidas, para comunidades inteiras que sofrem a tirania de líderes tresloucados que os fazem mártires em nome da religião ou da ambição desmedida de poder e de posse material.

Ninguém tem razão, e todos a  têm. O mundo tornou-se maniqueísta, onde cada ideologia se julga "do bem"  e as divergências, "do mal". 

Não existe mais a tolerância que edificava o convívio em harmonia, e a exacerbação passou a fazer parte da rotina. Esses episódios de horror, na realidade, são o acúmulo das pequeninas perversidades mútuas e diferenças do dia-a-dia, que numa espécie de surda conspiração vão se juntando para produzir a desforra bombástica. 

É como se o vizinho dissesse ao outro: "Viu a potência do meu deus?", e saísse com o riso sarcástico pela fraqueza do deus daquele.

Os artistas procuram como fonte de inspiração algo em que possam se encantar para  criar. 

Essas linhas ressentidas de otimismo param por aqui não sem antes reproduzir um texto do profeta Zé Ramalho, escusando-se com os leitores pela impossibilidade de levar-lhes algo mais ameno: 

"Prevejo dias/com o ventre da Terra à mostra/céu sem sol/chuva de bosta/mentira igual verdade/tombam estrelas/todas as calamidades/cairão sobre as cidades/tempestades/mortos-vivos nas estradas/árvores virando cruz/com a ira da potestade/os reis caminhando nus.  

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em setembro/2001

sexta-feira, 29 de março de 2013

Ter é imperativo, ser é irrelevante. Maldita inversão!


Crente já ter visto de tudo nesses meus impávidos 49 anos de existência, no mínimo uns 40 lendo jornais, fui surpreendido por uma notícia chocante dia destes cujo impacto em meu intimorato espírito revelou-me, felizmente, que ainda não foi sedimentada minha capacidade de indignação nem que estou imunizado contra os abalos morais e a comoção ao presenciar o drama alheio. 

Um cidadão (só me recordo do sobrenome, Wunder) carioca mata a família – três filhas adolescentes e a mulher – e suicida-se em seguida, unicamente porque já não conseguia manter o alto padrão de vida material que ostentava.



Que me lembre, só os cruéis assassinatos do menino Serginho, aqui mesmo em Bom Jesus, em 1977, crime que ficou conhecido como o caso “Zé do Rádio” (ele, o Zé,  sequestrou e assassinou o sobrinho de 11 anos a pauladas e depois jogou o corpo no Itabapoana) e da menina vitoriense Aracelli Cabrera Crespo, 8 anos, assassinada por pedófilos influentes da capital, logo após ser abusada sexualmente por eles, em 1973. 

Na década de 60, ainda menino, horrorizei-me com o famoso caso “Fera da Penha”, um crime tão inacreditavelmente brutal, tanto na mecânica do ato quanto pelos motivos, que até hoje guardo muito vívido na memória. 

A comerciária Neide Maria Lopes, a fera de 22 anos, matou com um tiro na cabeça e depois incendiou a filha do amante, a pequena Tânia, 4 anos, nos fundos de um terreno baldio do matadouro da Penha para se vingar do pai da menina. 

Esses três casos, no entanto, tiveram em comum o elemento da maioria dos crimes, que é o atentado contra o semelhante. No caso do Wunder a coisa ganha aspectos ainda mais dramáticos. Ele matou a própria família! 

O mais estarrecedor foi o motivo: a insolvência daquele que era um importante empresário carioca, e que por isso não conseguia mais sustentar o altíssimo padrão de vida familiar. Tudo aconteceu de forma brutal, dentro da própria casa, dentro dos quartos, sobre as próprias camas. 

Os valores materiais, elencados pelo homem contemporâneo acima dos méritos morais e espirituais (em toda a casa havia imagens de santos e máximas de cunho religioso, uma perversa ironia!) ocasionaram a tragédia. Veja a que ponto chegamos! 

O que esse consumismo desenfreado, esse apelo irresistível está fazendo conosco! Como é triste assistir principalmente a nossa juventude totalmente perdida num sistema opressor que exige um videogame de última geração a cada seis meses, um par de tênis de R$ 300 a cada três e um jeans por semana! 

Como podemos continuar a viver assim, sem resistência aos apelos do consumo, sem saber dizer não ao dinheiro, profundamente frustrados se os nossos bens são inferiores aos do vizinho?

Temos de fazer uma profunda reflexão e reagirmos, tentarmos encontrar uma saída, uma forma de tolerarmos conviver sem as grifes, sem as viagens, sem as compras supérfluas e sem os restaurantes de luxo. 

Precisamos recuperar a capacidade de ficarmos um pouco sozinhos, com nossas famílias, com nossas consciências, com nosso silêncio e nossa solidão. Nossos filhos precisam aprender a não cobrar, cobrar e cobrar sempre, sempre mais.

 Vivendo em bandos, competindo de modo insano para provarmos que somos os melhores, os mais elegantes e os mais poderosos elegemos a vaidade e o egoísmo como valores básicos, e isso positivamente não se coaduna com os valores basais da vida em sociedade. 

Sem querer ser piegas, o ser haverá de se constituir, mais dia menos dia, no elemento capaz, único da manutenção da vida na Terra. Já passou, e muito, a época de resgatá-lo e cultivá-lo com carinho.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em julho/2003

terça-feira, 26 de março de 2013

O "Penta que partiu" em 1998 apresentou-se em 2002. Bom, ótimo. Mas as mazelas brasileiras não podem ficar escondidas na sombra da Pátria de Chuteiras


O p.q.p. (penta que partiu) em 1998 veio agora, eu não disse? Não quis dar uma de profeta quando na edição 127 da Revista Status transmiti uma convicção inabalável nesta  conquista. 

Sabia que nossos valores individuais eram infinitamente superiores aos adversários, bastava apenas que jogassem com raça e união. Não deu outra!

Parabéns aos nossos meninos, que com talento, maestria e muita determinação inflaram nosso peito de orgulho. Parabéns sobretudo ao craque Ronaldo Fenômeno, o virtuose da bola que reuniu forças colossais para reconquistar o lugar cativo de destaque entre os destaques. 


A lembrança do seu drama pessoal, do desespero de um garoto no auge da carreira por sofrer uma terrível lesão, ao mesmo tempo em que contemplava embevecido a sua arte ressurgida quase que milagrosamente foi emocionante: verti lágrimas, confesso.


Mas voltemos à nossa realidade triste, essa que igualmente com raça e doses cavalares de patriotismo também temos de encarar. 


Não quero ser estraga-prazeres, mas parafraseio João Saldanha dizendo “vida que segue”. E essa não é tão alegre quanto aqueles dias de magia propiciados pela Pátria de Chuteiras. 


Que não fique entorpecida pela alegria do esporte a capacidade de discernimento do povo brasileiro, para não completar a alegria dos oportunistas de plantão.

Não nos esqueçamos, por exemplo, da morte brutal do jornalista Tim Lopes em pleno exercício da profissão, assassinado pelo poder paralelo exercido pelo tráfico neste Brasil de chuteiras de ouro e pés descalços. 


Aliás, valho-me de seu flagelo para dar minha opinião sobre o porquê de a imprensa interiorana ser tão insípida e previsível. 


Se nem a Globo logrou preservar a integridade física de um dos seus mais destacados profissionais, imagine se haverá por estas bandas quem se atreva a denunciar tráfico de drogas, que existe; exploração de menores, que existe;

Agiotagem (esse ilícito é tão escrachado que há casos em que o agiota se apossa do cartão bancário da vítima e passa a gerir suas finanças no melhor estilo Cosa Nostra) e contrabando, que existem, para ficar apenas nisso.

Não me atrevo a escarafunchar terrenos tão inóspitos, continuarei escrevendo generalidades e coisas amenas. 


Só peço desculpas aos meus filhos por não ter podido lhes oferecer um país decente, justo e soberano. 

Apenas o enleio transitório do futebol é pouco, muito pouco, mesmo com o privilégio exclusivo de podermos produzir artistas fenomenais como o nosso Ronaldinho, que embora aquém do melhor de sua forma está anos-luz além dos demais. 


Se sua determinação e patriotismo pudessem contagiar os políticos e os oligarcas do Brasil não seríamos campeões apenas da bola!


Autor: José Henrique Vaillant - publicado em julho/2002

segunda-feira, 18 de março de 2013

Sem arcanjo e sem trombetas "...prevejo dias com o ventre da Terra à mostra, céu sem sol, chuva de bosta..." - Zé Ramalho

WTC 11/11/2001 - Dia da Infâmia 
É mundialmente corrente a voz de que a Terra, quando destruída, terá sido num átimo, com o toque de dedos em dois ou três botões. 

Para quase 7.000 pessoas que conheceram o pavor nas torres do World Trade Center, número este de aterrorizados que se pode elevar à quarta ou à quinta potências a se considerar filhos, esposas e maridos, pais, demais familiares e amigos das vítimas, que igualmente viram fenecer a vida no que ela tem de melhor (que é a alegria de viver), os toques dos dedos teriam sido melhor. 


Sete mil pessoas, seus ascendentes e descendentes, grosso modo a população inteira de Bom Jesus do Norte, de forma direta, e bilhões de seres pensantes sensíveis que ainda reservam espaço para a piedade nos corações e nas almas, viveram um pesadelo que seguramente mudará o curso de suas vidas.


O que se pode tirar de útil dessa carnificina, dessa comoção interplanetária?




De que serviu o sacrifício dos mártires do WTC e o de nossas consciências machucadas, atordoadas, da nódoa que se perenizará na história da vida humana na Terra por todos os séculos e séculos sem amém? 

Para os americanos e simpatizantes, nem mesmo o sabor da desforra, porque esta não subtrairá grande coisa de um inimigo que faz da própria morte a razão de viver. 

Por ironia, é provável até que a fanática teocracia da qual Osama Bin Laden é um de seus expoentes máximos tenha planificado esse desfecho final como a apoteose de seus planos, no qual os atentados não encerraram em si o objetivo maior, que seria o expurgo de existências atormentadas num sistema econômico e social ditado pelo que consideram como o Grande Satã. 


E essa espécie de solução final pode ter sido engenhosamente planejada para ser executada às expensas do próprio adversário cego de cólera e sedento de sangue, que moverá as peças do intrincado jogo exatamente na direção de seus objetivos.


Se essa hipótese é verossímil porque pode ter tido a iniciativa de quem desmistifica a morte e torna sem sentido as palavras imprevisível e imponderável - nada mais será -, então por que fazer o seu jogo? 


Por que não mobilizar tamanho esforço e recursos para desfazer justamente as diferenças que levam a essas reações tresloucadas, na tentativa de restaurar o prazer da vida e da contemplação? 


Essa magnífica metamorfose, que teria como pedra filosofal a eliminação da opressão de todas as naturezas, em especial a econômica em todos os quadrantes é a única possibilidade de o Planeta não tornar-se inóspito bem antes do que se imagina, porque se a fé numa divindade pode ter consequências de tamanha destruição, a falta dela pela sucessão secular de desesperança, de injustiça e de fome pode trazer danos e sofrimentos ainda maiores.


Que não seja preciso acionar os botões! Assim como Hollywood viu agora esgotadas as inspirações mais delirantes, é lícito acreditar em roteiros amenos também para a vida real, em que os valores como a moral, o respeito e a fraternidade sejam realçados em sobreposição à decadência do hedonismo, da empáfia e da ambição desmedida e criminosa. 


Para tanto, rezemos. Em nome dos mártires inocentes que foram estupidamente interrompidos em seus sonhos e em seus projetos; em nome dos que estão na iminência de perdê-los e por nós todos, uma geração fadada a promover o retorno glorioso da era medieval e do primitivismo dos instintos se não puder contar com uma força superior que a guie pelas veredas do amor e da consciência.


Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em setembro/2001

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A doce vida de um bandido


No dia 6/10 p.p., aproximadamente às 16h, um homem de cerca de 20 anos fingia comprar alguma coisa no Mercadinho do Povo, em Bom Jesus do Norte, e na hora de pagar anunciou o assalto mostrando um volume por baixo da camisa, que parecia arma de fogo. 

Ele pegou o dinheiro (cerca de R$ 400) e tentou roubar também uma moto do irmão da moça do caixa, mas este apareceu no momento e, - contou à reportagem, deu um potente soco na barriga do meliante que se evadiu em desabalada carreira. 


Saindo ao seu encalço pela Beira-Rio, Bairro Silvana, o rapaz repetiu o gesto do ladrão e se jogou no rio, mas do outro lado a Polícia Militar de Bom Jesus do Norte, que fora acionada, capturou o acusado e recuperou o dinheiro. A suposta arma não foi localizada.

Ocorreu um assalto com a imediata e bem sucedida reação da polícia! Legal, não é leitor? Mas o epílogo foi vexaminoso! Péssimo para a nossa cidadania, eu digo! 



Chegando por volta das 17h30 à Delegacia, o marginal, devidamente algemado e à disposição da autoridade teve de ser solto aproximadamente às 23h do mesmo dia por falta da... autoridade! 

É que Bom Jesus do Norte, assim como alguns outros municípios pequenos não têm delegados de polícia. Resultado: os presos aqui têm de ser encaminhados a delegados "regionais" sediados em outros municípios. 

Como preconiza o Código Penal, todo cidadão preso deve ser encaminhado a esta autoridade, que é quem tem a prerrogativa legal de mantê-lo privado da liberdade, de acordo com a natureza da ocorrência, até a Justiça se manifestar. 

No caso, era necessário transportar o acusado até Alegre, cerca de 100 km, para que fosse interrogado pelo plantonista da área (extensíssima), mas a polícia não pôde  fazê-lo naquela oportunidade.


Resumo da ópera bufa: "Já posso imb´ora"?, celebrou o acusado com os olhos brilhando de excitação, mal disfarçando a alegria pelo bafejo da sorte. 

E se foi, serelepe, sem que a polícia tivesse sequer a certeza de seu nome e endereço, que dirá de sua folha-corrida (que pode ser ser extensa, quem sabe de alguém muito perigoso), talvez achando que o crime compensa, e quem sabe planejando novas arremetidas?

Em conversa informal com um policial, observei: - e se ele retaliar a vítima ou cometer outro crime? - A gente prende outra vez, redarguiu. - Mas tem de soltar logo em seguida..., insisti. - Fazer o quê?, respondeu, com ar resignado.


Casos como este são um acinte ao cidadão honesto, trabalhador, que paga seus escorchantes impostos justamente para ter um pouco de segurança, entre outros serviços públicos que o Estado brasileiro "deveria", entre aspas, prestar ao seu povo. 


Quão melancólica foi esta cena kafkiana, que apresentou duramente a realidade de um país voraz na arrecadação de impostos, mas incompetente na mesma proporção ao cumprimento de seus deveres institucionais.

Resta torcermos para que este tenha sido um caso isolado, embora injustificável.


Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em outubro/2006

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Uma noite longa demais

Olá, amável leitor, graciosa leitora. Outra vez, Gentil dos Anjos Flores 
da Purificação, seu criado. Leiam este emaranhado de espinhos.

Bom Jesus amanheceu com um céu carregado de densas nuvens. O horizonte plúmbeo compunha um cenário triste, opressor, parecendo que a Natureza queria contribuir com uma decoração característica para os sombrios acontecimentos daquele dia.

Catherine, uma amiga, quarentona simpática, grande ser humano, vinha de cabeça baixa com um lenço a enxugar o nariz. Atravessei a rua para cumprimentá-la, mas quando me aproximei, senti um calafrio.

A face irretocável do desespero! Rosto inchado, borrado pela maquiagem diluída pelas lágrimas que fluíam aos borbotões.
– Que bicho a mordeu, Catherine...? Epa..., epa..., não chore..., calma..., calma...


Praticamente arrastei-a até um banco da Praça Astolpho Lobo. Antes de sentar-se ela desabou em meu ombro num choro ainda mais convulsivo, descontrolado, balbuciando palavras desconexas. - Minha filha...

- Hein???!!! – exclamei sobressaltado, pensando na bonita jovem de 18 anos, carinhosa, simpática, um doce de criatura, como a mãe. Para mim sempre será aquela garotinha que vi crescer, considerando-a como minha própria filha.

– O que aconteceu à Tárin? -, perguntei já também meio descontrolado, adrenalina a mil.

Em meio aos soluços, as informações começaram a surgir:
- Ela..., ela..., na Internet..., mais prantos a contrariar minha aguda curiosidade.

- Internet... O que tem a Internet?, indaguei com uma calma aparente que estava longe de sentir de verdade.

- Fotos... Publicaram fotos dela...

Em segundos senti a tragédia, assimilei sua dramaticidade, e com a revolta instantânea que de mim se apoderou, encarei-a nos olhos e indaguei:
- Quem?
- O ex.
- O cara de Vitória que ela pretendia me apresentar?
- Sim
- E ela?
- Quis se matar. Um montão de comprimidos...
- Mas...
- Os médicos lavaram o estômago...
- Maldito..., balbuciei.

Depois de acalmar Catherine e levá-la para casa, onde vivia só com a menina, inteirei-me dos detalhes do ocorrido. O roteiro, embora monocórdio, repetitivo, é sempre devastador para a vítima, os familiares, os amigos. Extremamente traumático, marca a ferro e fogo as vidas de tantos que gravitam na órbita das famílias; destrói sonhos; dilapida a auto-estima; deprime, angustia e envergonha ad eternum.

Tamanha sordidez, insensibilidade, malevolência de um crápula brutal que fotografa e filma as parceiras nuas, em posições constrangedoras nesses aparelhinhos infernais, para depois compartilhar o material abjeto na Web, teria de ter uma punição. Canalhas desse naipe são criminosos covardes, imorais, aproveitadores da vulnerabilidade e ingenuidade juvenis.

Algumas semanas depois...

Como Vitória é bonita!, eu pensava caminhando no calçadão da Praia de Camburi, alguns dias depois. Sabia apenas que o safado era homofóbico (dizia sempre a Tárin que detestava gays, tinha inclusive agredido um rapaz que se engraçou com ele), e de que morava ali por perto. Não tendo o endereço, tinha esperança de encontrá-lo num dos vários bares e restaurantes da orla. Nunca nos vimos, mas portava algumas fotos recentes, não seria difícil identificá-lo.

Fiquei uma semana de atalaia, ampliando o espaço geográfico de minha busca à medida que os dias transcorriam, passando a monitorar shoppings, danceterias e outros points. Minha determinação valeu a pena. Certa tarde encontrei o bastardo comendo um lanche num desses famosos fast-foods.

Não havia dúvidas. Porte atlético, de 35 a 40 (velho para Tárin), penteado tipo Moicano, à la Neymar, (velho também para isso), exatamente como nas fotografias, acompanhado de vários adolescentes de ambos os sexos (novos relativamente ao babaca).

Pedi um lanche e sentei-me discretamente numa mesa ao lado. Mastigava devagar, todos os meus sentidos voltados para a algaravia. Um frêmito me invadia, rejubilava-me por ter renovado a diária com a locadora de automóveis.

Uns 30 minutos depois o bando se desfez. O infame dirigiu-se ao ponto de ônibus, próximo ao local onde eu havia estacionado o carro. - A sorte é minha cúmplice, pensei quando ele tomou um micro-ônibus e parti no encalço.

Desceu justamente nas imediações que percorri durante uma semana em Camburi. Parei o carro e o segui a pé. Atravessou a pista e ganhou uma via transversa. Caminhou mais uns 300 metros até chegar a um prédio de apartamentos. Entrou.

Esperei alguns minutos e dirigi-me ao prédio. Toquei a campainha da portaria. Uma voz metalizada no interfone perguntou o que eu queria.

– O rapaz que subiu agora perdeu uma carta. Poderia entregá-la?
- Passe-a por baixo da porta -, respondeu o porteiro energúmeno, sem sequer me olhar pela imponente vidraça.

Ato seguinte, já de volta ao carro, liguei para a minha correspondente em Colatina, uma balzaquiana de rara beleza, classuda, irresistivelmente sedutora: - A águia pousou, informei, recebendo um ok como resposta.

No dia seguinte devolvi o veículo à locadora, tomei um táxi e rumei para a rodoviária. Chegando em casa, liguei o computador e acessei meu gerenciador de e-mails. A mensagem irônica me falava baixinho, quase num sussurro: – Vou me apaixonar por ele; é tão loquaz..., agradável..., romântico...

Abri a página do MSN:
- Me teclou naquele mesmo dia -, digitou a parceira colatinense.
- Rápido no gatilho, não é?
- É. Disse que se surpreendeu com a forma inusitada pela qual informei meu e-mail, através de uma carta entregue na portaria por um sujeito...
- Gentileza do Gentil, he, he, he...
- ... Mas que não via motivos para não fazer contato.
- Comentou sobre as fotos?
- Claro. Justamente por elas não viu motivos para não logar...
- É..., "sua filha" é realmente um mulherão!...
- Ah, Ah, Ah. A propósito, escolha uma filha para mim menos sensual na próxima vez. Esses monumentos femininos podem ser fáceis de achar na rede...
- Não me julgue um amador, sei o que faço! Que dia vai ser o encontro dele com "sua filha"?
- Semana que vem.
- Então, inté.
- Inté. Não esqueça... www... pontocom...
- Não vejo a hora... Boa-sorte no servicinho...
- Tchau, cuide-se.

Desliguei o computador sentindo a alma leve, uma intensa sensação de paz e conforto. Admirador do profissionalismo e eficiência de minha parceira, sabia que tudo ia dar certo. - Será que a audiência vai ser boa?, era o que me perguntava, sabendo que todos os contatos do infeliz seriam devidamente avisados do show de imagens que iriam desfrutar na Internet, bem como internautas de todos os rincões do Planeta, inclusive de Bom Jesus.

Dito e feito: showzaço!!!

- E aí? -, teclou minha eficaz auxiliar de Colatina, no dia seguinte ao memorável acontecimento.
- Aquela calcinha que ele estava usando era um tanto minúscula, não acha? -, observei. - Moicano de calcinha... Mais que exótico. Escatológico!

- Ele que escolheu. Inclusive a cor do batom vermelho-sangue, a cinta-liga e os sapatos de salto.
-"Boa-noite cinderela", como sempre?
-Produto novo. Hipnotiza instantaneamente, altera radicalmente a personalidade. Melhor ainda: não permite que o cérebro registre nada do que se faz enquanto dura o efeito.
- Não vai se lembrar de nada?
- Só sentir as dores..., sabe..., lá... E que passou uma noite maravilhosa num motel com a mãe de uma adolescente que viajou às pressas para visitar o pai que estava nas últimas devido a um acidente.
- Você é demais! Obrigado.
- Às ordens.

No outro dia vi Catherine e Tárin. Nem parecia que uma tragédia havia se abatido sobre elas. Não tocamos mais no assunto, era como se nada houvesse acontecido de anormal. Apenas uma observação de Catherine, que me fez abrir um largo sorriso, mencionava discretamente o show:

- Aquele pepino era de Itu?, perguntou com uma sonora gargalhada, acrescentando: - como pôde caber?


- O vagabundo deu sorte, respondi. - Não encontraram aipim na feira...

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em julho/2011