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Mostrando postagens com marcador Injustiça Social. Mostrar todas as postagens
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terça-feira, 28 de maio de 2013

A gente não tem hospital, mas que importa? Temos bolsa família...

Vendo as imagens das filas quilométricas que se formaram nas agências
da CEF quando do boato da extinção do Bolsa Família, deu para perceber
que nem todos necessitam do benefício, que deveria contemplar apenas
as pessoas circunscritas em contextos semelhantes ao desta
ilustração, copiada de guebala.blogspot.com 
A Caixa Econômica Federal, todos sabem, liberou antecipadamente o pagamento do bolsa família de junho. 

Mas não avisou ninguém, daí a boataria de que o dinheiro extra seria uma compensação pela suposta extinção do programa.

As consequências, todos viram, foram filas quilométricas nas agências do banco, felizmente não descambando para intercorrências trágicas.

Não vou tecer considerações sobre o episódio em si - mais uma lambança do governo "dus cumpanhêro" -, mas sobre a imagem sem retoques propiciada, de a quantas anda o assistencialismo desenfreado, vale umas palavrinhas.

Ontem fui a Itaperuna. Entre outras coisas, entrei numa farmácia para comprar goma de nicotina, e conversando com o atendente, que disse conhecer pouco Bom Jesus, ele perguntou sobre "os hospitais daqui".

Num primeiro momento pensei que estava de sacanagem, mas depois entendi que não. Ele realmente tinha ouvido falar, em priscas eras que bem longe vão, de que Bom Jesus possuía três hospitais relativamente bem equipados. 

- Um deles nada ficava a dever ao seu São José do Avaí. Até mesmo gente de Itaperuna ia tratar-se no São Vicente de Paulo, já ouviu esse nome?, perguntei.

- Claro, claro, afirmou. E como está atualmente?

- Só restou meio.

- Como?

- Isso que você ouviu. Dos três que tínhamos, dois acabaram nos ignotos desígnios da fatalidade, e o São Vicente está vai, não vai. 

- Aí fica difícil, não é?

- Difícil? Trágico, você quer dizer...

Depois, já em casa, vendo as imagens e alguns vídeos das multidões desesperadas nos caixas eletrônicos, liguei uma coisa a outra. Não há hospitais, mas um dinheirinho no bolso relativiza isso.

Uma mulher reclamava que os R$ 134 que recebe mensalmente há oito anos são poucos. "Não dá pra comprar uma calça jeans para minha filha!"

Outra: "Fui depositar dinheiro na poupança do meu esposo, aproveitei e fui sacar o bolsa família. Aí, saíram os dois meses!"

O país está cevando uma verdadeira multidão de dependentes do assistencialismo que, claro, rende votos. 

Uma pobre que alimenta 10 filhos no semiárido nordestino, certamente precisa da assistência. Para comer e dar de comer, não para comprar calça jeans, não para possibilitar sobras para guardar na poupança!

Por onde anda o discurso da "porta de saída"? Onde estão as reduções paulatinas da necessidade assistencial? Por onde anda o tal caniço, sobretudo que fim levou a promessa de que ensinariam o povo a "pescar"?

Ao contrário, cada vez mais e mais brasileiros tornam-se dependentes do Estado. Até para comprar calça jeans. Enquanto isso, fecham-se hospitais.

Péssimo negócio! 

Autor: José Henrique Vaillant
www.recantodasletras.com.br/autores/josevaillant

terça-feira, 30 de abril de 2013

Caos na Saúde Pública para a plebe rude; Sirio Libanês pago a peso de ouro pela plebe rude para a casta política privilegiada!

euarte.arteblog.com.br
O Hospital Sirio Libanês, em São Paulo, um dos mais completos e avançados do Planeta, frequenta o noticiário com bastante regularidade, quase concorrendo com a previsão do tempo. 

Isto porque 10 em cada 10 famosos e notáveis, políticos em profusão, lá acorrem quando daqueles terríveis momentos em que a vida se vê ameaçada.

Principalmente para políticos de todos os naipes, oriundos dos mais variados recantos brasileiros, o Sirio Libanês é o amigo certo das horas incertas. 

Alguns se deslocam para lá em reluzentes jatinhos e helicópteros.

Para a plebe, só desacolhedores incertos. Incertos, não sabidos, esquivos. 

Muitas vezes aboletados numa Van ou veículos outros, consomem-se em longas viagens para municípios um tantinho melhores que os de origem, curtindo sua dor física e sua amargura dessa tremenda, terrível, inaceitável injustiça social.


Lá misturam-se aos nativos, formando uma massa de desesperados e desesperançados.


E o país tão vasto, tão rico, nada menos que a 6ª economia do Mundo, que gasta bilhões de Dólares para sediar Copa do Mundo, outros tantos bilhões para nutrir a corrupção desenfreada, destina migalhas para a Saúde da população.

A situação lamentável dos hospitais abarrotados, atendendo a pacientes nos corredores, com carência de médicos, sem medicamentos, incapazes de realizar o mais simples procedimento, pululam no noticiário como um contraponto cruel e infame aos boletins do Sirio Libanês.

Estes boletins são lidos com a fleuma de um lorde inglês por médicos componentes da mais fina flor da ciência, que em seus jalecos alvíssimos e de boa grife dão aos desventurados os informes sobre a quantas anda o tratamento do figurão da hora.

O senador Cristóvam Buarque foi ridicularizado certa feita ao sugerir um projeto que obrigasse a que todo político devesse educar os filhos em escolas públicas. 

Só assim, dizia o senador, teríamos uma Educação de qualidade. 

paraibahoje.wordpress.com
E da mesma forma que na Educação, se ao político fosse vedado o atendimento em instituições particulares de Saúde, teríamos o melhor sistema do mundo!

Um dos candidatos a prefeito de Bom Jesus do Itabapoana/RJ se diz disposto a, entre outras coisas no setor, reabilitar o Hospital São Vicente de Paulo. 

E sabe que o município nada tem a ver com a administração da entidade, que é de natureza jurídico-privada. 

Mesmo assim, propõe-se a interagir com a direção, afirmando que poderá até despachar o expediente como prefeito dentro das dependências do nosocômio, até que ele volte ao atendimento pleno de outrora.

Se essa disposição do candidato é em sentido literal ou figurada, pouco importa, mas a mensagem que dela se manifesta, sim. 

Neste sentido, e enquanto a Saúde estiver tão calamitosa, prefeitos, governadores e até a presidente da República deveriam despachar nas secretarias de Saúde e no Ministério da Saúde. 

E só retornarem a seus gabinetes suntuosos quando a população que lhes paga o Sirio Libanês puder dispor de centros de saúde condizentes com suas necessidades e direitos. 

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em setembro/2012

domingo, 21 de abril de 2013

Sem nada; ou, não só de terra necessitam os brasileiros

Da República Velha, da era Getuliana até a República dos generais, do Estado Novo, do Brasil de Tancredo, Sarney, Ulysses, Collor, Itamar e agora do nosso bem intencionado FHC, temos acompanhado o crucial problema da terra no Brasil. 

Discute-se muito este assunto em épocas de eleições, diria até que de forma casuística e eleitoreira. 

Nestes períodos todos os políticos, (inclusive os da UDR e os que representam os donos de propriedades improdutivas, imobilizadas para efeito especulativo, ou mesmo de proprietários desinteressados por estarem envolvidos em outros negócios) se dizem dispostos a equacionar o grave problema. 

Passadas as eleições, entretanto, o assunto vira letra morta.

No atual governo, felizmente, vislumbra-se, mesmo que tenuemente e a passos de cágado, alguma coisa parecida com uma política coerente de assentamentos. 

Dirá o leitor que é pelo fato de que o atual governo é generoso, tem compromissos com as turbas esfaimadas, com os indigentes e miseráveis das cidades. 


Ledo engano. É que já não dá mais para segurar, não dá mais para ignorar a modesta, porém eficiente, organização dos sem terra, que quando apartada dos oportunistas que se aproveitam do grupo para fazerem política rasteira, legitima-se pelos objetivos. 

Não dá para passar despercebida a mídia veiculando verdadeiros exércitos de miseráveis à procura de um lugar onde possam viver com dignidade e através do suor do seu trabalho, quase sempre ocupando terras improdutivas, muitas das quais sendo meramente objeto de especulação ou apenas satisfazendo a sanha egoísta dos seus proprietários capitalistas.

O povo não pode continuar a conviver com a tremenda injustiça social que o assola, (dos filhos deste solo, és mãe gentil), com o governo privilegiando banqueiros falidos, usineiros desonestos e políticos profissionais especializados em fisiologismos, casuísmos e adeptos da velha máxima do “é dando que se recebe”, em detrimento das massas famintas e desesperadas. 

Para se ter uma ideia da calamidade social em que nosso país se encontra, dos 270 países que compõe o Planeta, o Brasil encontra-se entre os últimos colocados entre aqueles com as melhores distribuições da renda nacional. 

Enquanto 10% dos abastados, com suas bochechas coradas e suas contas bancárias, aqui e no exterior, abarrotadas de dinheiro abocanham 90% da riqueza, 90% dos marginalizados que não foram bafejados pela sorte ou não tiveram vocação para a verdadeira pilhagem sofrida pela nação sobrevivem, raquíticos, Deus sabe como, com os 10% da migalha restante. 

Pelas contas oficiais de Brasília, o índice de desemprego está na casa dos 6%. Ora, mesmo que tenhamos muito boa vontade em acreditar neste número, os desempregados chegam à astronômica cifra de 3,6 milhões de pessoas, o que equivale a 12 maracanãs lotados.

Enquanto isso, na corte... Tudo vai indo muito bem, obrigado. 

Exceto apenas pela desagradável tarefa de girar um pouquinho a manivela da válvula de escape, nossos dignos “representantes” levam a vida que pediram a Deus. 

Mas sejamos justos. Tudo tem que ter um começo, e FHC deu o pontapé inicial em alguns projetos sociais, inclusive no projeto dos assentamentos. 

Algumas pessoas despossuídas já estão vendo seus horizontes toscamente delineados. 

Para os operadores da válvula de escape, contudo, ainda resta muito trabalho, pois o Brasil não é composto somente por sem terra, abrigando também em seu seio os sem emprego, os sem casa, os sem saúde, os sem ensino, os sem segurança, os sem...

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em maio/1999

domingo, 7 de abril de 2013

Caminhar é preciso

A marcha dos sem terra, muito mais que um protesto organizado por cidadãos excluídos, mostra-nos a única alternativa possível na busca por justiça social neste país. 

Excluindo-se os aproveitadores, oportunistas que se infiltram no movimento para sugar o que puderem, ou transformá-lo em braço político, no geral é um movimento reivindicatório pacífico, consciente da legitimidade dos seus propósitos que são defendidos a qualquer preço, até mesmo com a própria vida, se preciso for.


Mas, e os demais excluídos? Como se poderia organizar uma marcha a Brasília, por exemplo, dos bebês que quisessem protestar e reivindicar o fim do morticínio de seus iguais causados pela desídia e negligência das maternidades? 

Será que poderíamos organizá-los numa marcha a Brasília, de gatinhas, improvisando-lhes mini-joelheiras, e uma campanha de oferta de seios intumescidos de leite pelas mulheres simpáticas à sua causa, ao longo da jornada? 

E os doentes, centenas e mais centenas que sucumbem diariamente por falta de médicos, leitos e medicamentos? Caminhariam, talvez, dentro de ataúdes com rolimãs?

É cansativo, enfadonho ficar enumerando o que os políticos poderiam fazer para resolver os problemas sociais. 

Seriam providências de fácil execução se assim o quisessem, mas como já se perdeu as esperanças nessa classe, só resta aos padecentes adquirir um bom calicida e um pedaço de pano vermelho e branco.

Como seria a caminhada dos velhos excluídos e jogados em clínicas assassinas? Por certo não iriam faltar muletas, pois algum político esperto (baita redundância!) certamente abriria uma empresa de fabricação e distribuição. 

Como seria uma caminhada das crianças vítimas de abuso sexual? Peregrinariam munidas com cintos de castidade? 

E os índios incendiados pelos brancos? Portariam extintores de incêndio ao longo do trajeto?

Gostaria de ocupar este precioso espaço com coisas alegres e otimistas. Mas não vejo jeito, e o leitor há de concordar comigo. 

Paro por aqui dando uma dica financeira: o melhor negócio no Brasil, hoje em dia, é investir em ações das Fábricas de Sandálias Havaianas. 

Espero que um dia uma sociedade verdadeiramente civilizada possa contemplar com o olho rútilo e o lábio trêmulo de admiração e respeito o "Memorial dos pés com bolhas!

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em maio/1997

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ignara burguesia. Ou, a cara da violência. Ou, se não corrigirem as injustiças, cercas eletrificadas e cães de guarda nada resolverão

A violência que invade os quintais da burguesia e das autoridades brasileiras deixando-as perplexas foi largamente anunciada durante muito tempo de opressão e de miséria. 

E a cena se repete. Sob a influência do estarrecimento, discutem-se atabalhoadamente medidas inócuas de combate ao crime, procuram-se fórmulas mirabolantes, pensamentos concatenam-se de maneira febril para encontrar a saída, mas a cegueira não permite admitir que só há uma única via, propalada quase sempre de forma hipócrita e dissimulada, que tem o nome de justiça social.

Prometida sempre, mas jamais parida, sua ausência sedimentou uma escalada tão brutal da violência que a ela já não mais fazem frente carros blindados, seguranças fisiculturistas armados até os dentes, cercas eletrificadas, ferozes cães de guarda e toda a parafernália eletrônica.


 
Emergindo dos guetos e da promiscuidade, cenários onde era restrita, a violência ganha o asfalto e se mobiliza contra as classes sociais que mais a fomentam, mesmo de forma inadvertida e não deliberada, uma espécie de criatura que se volta contra o criador.

A burguesia brasileira não é melhor nem pior que as de todo o mundo. É mais bronca e estúpida, porém, porque pela sensibilidade toldada custou a perceber os clamores a cada dia mais intensos da imensa parte excluída, o que inibiu a noção do grande perigo que a ronda diuturnamente. 

Em países mais desenvolvidos, a elite já percebeu de há muito que não é inteligente comer tudo e deixar os pobres famintos, e por conseguinte, raivosos. 

No Brasil, 10% da sociedade detêm 50% da renda nacional. Em nenhum país do mundo a concentração é tão brutal. Em Ruanda, por exemplo, os 10% mais ricos abiscoitam 25% e até na Tailândia o número não passa de 37%. 

A virulência das desigualdades sociais no Brasil é mais perversa quando se sabe que uma grande parcela dos miliardários adquiriu sua riqueza na "mão grande" mesmo, tirando literalmente a merenda da boca das crianças, o remédio da turba adoentada e todo e qualquer arremedo de avanço social.

Não é de estranhar, portanto, o nível astronômico da violência que nos assola. Muitos dos que estão na vivenda do crime o fazem por absoluta falta de opção, pela mera necessidade de cavar o seu sustento. 

Não há emprego no país, já que os investimentos jamais contemplam programas de desenvolvimento. Eles vão direto para a especulação, para o ganho fácil, em última análise bancado pela miséria. 

Os parcos recursos de tímidos programas dito sociais, invariavelmente vão engordar a conta bancária dos privilegiados. Jamais chegam a quem deles realmente necessita. 

Esse negócio de dar R$ 15 reais de esmola para o filho frequentar o colégio (e gerar publicidade estonteante do governo) é o cúmulo da desfaçatez!

Não haveria chance de o chefão do crime arregimentar jovens nas favelas se estas não existissem. 

Não haveria a necessidade de o cidadão obter seu sustento de forma criminosa se o pudesse fazer de forma legal. 

Claro que o crime sempre existiu e sempre existirá. Mas da forma como ocorre no Brasil e noutras repúblicas onde um único banqueiro abocanha os recursos que calaria a fome de milhões, não poderia ser mais ameno! 

Os recentes assaltos e sequestros sofridos por pessoas notórias, da fina flor social brasileira, e até a morte de personalidades são sinais apavorantes de que a ruptura de uma convivência harmoniosa está ocorrendo de forma medonha. 

A elite está percebendo, a fórceps, que a indignação pela estarrecedora injustiça social está pulando seus muros e exigindo retratação urgente, com a cara da violência fitando com rebeldia o tubo de ensaio grandemente responsável pelo exagero de sua escalada, instaurando o terror e a desgraça  sem piedade nem clemência.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em fevereiro/2001

Eras Tu, senhor?


Pode parecer um tanto piegas utilizar-se de uma mãe sofrida em meio a um ambiente festivo, mas o objetivo é forçar uma reflexão coletiva a respeito dos contrastes sociais em que o mundo é forjado, e nada melhor que fazê-lo justamente, e por ironia, nos momentos em que a humanidade comemora exatamente o nascimento de uma criança humilde, carente e sofrida, que veio ao mundo padecer em holocausto o preço da nossa salvação.

Reparem no olhar dessa mãe. Observem seu semblante desiludido e desesperançoso. Quem, senão os insensíveis, não haverá de deixar-se vencer pela emoção ao tentar entendê-lo? 

O mundo egoísta, opressor e tirano não poderia ser tão selvagemente cruel a ponto de tripudiar assim, mostrando-lhe sonhos que jamais poderão ser realizados!


Que conjunção de astros ou conjugação de fatores telúricos ou sobrenaturais poderão dotar uma mãe do entendimento e da compreensão para as injustiças que lhes são impostas sem piedade, mais dolorosamente a seus filhos?


Conforme disse o poeta (o inglês William Wordsworth - 1770-1850), “a criança é o pai do homem”. 

E essa criança no colo, certamente, é mais uma semente que não germinará de forma ideal pois que semeada em solo contaminado pela brutalidade das injustiças que a impedirão vicejar uma infância sadia e feliz.

Que perguntas esse olhar amargurado formula? Que compreensões deseja obter? 

Seria talvez sobre as razões de se comemorar com tanta pompa e circunstância nesta época o nascimento de uma criança que viria a condenar veementemente a subjugação do homem pelo homem? 

E o porque de alguns o comemorarem ostentando acintosamente a fartura e o poder material?

Este olhar, ao fitar o nada, certamente traduz involuntariamente o resultado da incompreensão sobre a existência de amor e carinho para alguns, indiferença ou ódio para si; castelos e mansões num lado, favelas e cortiços pestilentos e promíscuos a abrigar sua infeliz matéria, de outro; 

Farturas gastronômicas de variados paladares e matizes noutras mesas, e na sua um ralo mingau de fubá raramente complementado com um naco de salame de qualidade duvidosa!

Quanto equívoco! Será que não percebemos que os mimos ofertados ao Menino Jesus pelos Reis Magos não teriam sido um simbolismo de amor ao próximo? 

Não teria sido uma senha acenada há 1997 anos para demonstrar aos mais afortunados a não deixarem desamparados e ao relento os que nada têm?

Tenhamos cuidado ao degustarmos nosso bom vinho e nossa boa comida contemplando este olhar. Pode ser que tenhamos um nó na garganta e os de maior sensibilidade poderão sentir como um soco na boca do estômago. 

Mas seja o que for o que sentirmos, atentemos a que este olhar tristonho, não identificado individualmente mas com certeza similar a milhões de outros merece, de nós, ao menos uma prece. Se possível, um pouco de indignação!

Eras tu, Senhor?


Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em dezembro/1997

Acabou-se a festa

brodyharper.com
Por decisão da prefeita de Bom Jesus do Norte, este ano a cidade não terá a sua tradicional festa de abril, onde se comemora a emancipação político/administrativa. 

S.Excia. alega, com certa razão, motivos de ordem econômica para justificar a não realização dos festejos, agravados pelo espectro das cheias do Rio Itabapoana, que no início do ano sinistraram a cidade.

Alguns questionamentos: 

1- O custo financeiro para se fazer uma festa é assim tão grande a ponto de privar o povo (mais especificamente o menos favorecido) do único evento que lhe proporciona entretenimento numa região absolutamente nula em ofertas de lazer? Por que tiram também o “circo” de uma comunidade que já está ficando sem o pão? 


2- O custo social não será maior que o financeiro? Afinal, centenas de pessoas dependem da festa para obterem alguns trocados do comércio informal e específico que a mesma propicia. 


3- A fim de evitar a solução de continuidade de um evento dessa magnitude para os padrões bom-jesuenses-d0-norte, seria desonroso patrocinar uma mais modesta? 

Não seria lícito privilegiar exclusivamente grupos musicais e artistas da região a um custo excepcionalmente mais baixo, em detrimento de artistas consagrados da nossa MPB que, via de regra, cobram somas colossais para nos “brindar”com 4 ou 5 músicas interpretadas a toque de caixa? 

4- De qualquer forma a prefeitura, mais cedo ou mais tarde,  não terá que efetuar melhoramentos no local onde está localizado o Parque de Exposições e áreas circunvizinhas, ou será que aquele bairro é considerado um feudo da oposição e só será dotado de atenção política quando esta estiver novamente no poder?

Seguramente a autoridade maior tem firmeza de propósitos e sabe ao certo o que está fazendo. 


Mas será que ao preconizar um tratamento draconiano e unilateral para a questão, ela não estaria inadvertidamente prejudicando mais que beneficiando? 

Sendo os festejos um libelo para as agruras da vida humilde, sua ausência não trarão indesejáveis ressentimentos?

Talvez não haja uma grande preocupação de S.Excia. a respeito, mas decisões impopulares desse nível podem ser o início da perda do bonde da história. 

Nunca é demais lembrar que “a mão que afaga é a mesma que apedreja”, e no caso são mãos cansadas e calejadas pelo trabalho árduo e desesperançoso, que possivelmente não perdoarão quem lhes negou a única oportunidade anual de juntar uma com outra num aplauso tênue, mas que reflete um filete de alegria que os algozes de sua própria espécie, muito astutamente, trataram de preservar-lhes. 

Estas mãos, mesmo que desprezadas ao longo de quase toda a existência ainda são úteis para desenhar um x.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em abril/1997

domingo, 31 de março de 2013

Inocência ultrajada


“O BRASIL ESTÁ DE OLHO...! É o que diz a campanha publicitária oficial contra a exploração sexual de crianças no país, crime perverso e covarde a consternar toda a sociedade e que desnuda de forma crua a violenta injustiça social que nos assola. Um grande olho humano ilustra o cartaz.

O Brasil está de olho, mas a visão está deturpada pelo astigmatismo que o leva a formular débeis tentativas de combater apenas o efeito e não a causa desta calamidade. 

Há que se debruçar no cerne da questão, na célula-máter desta infecção que se insinua de forma voraz e atinge milhões de vítimas com seu efeito devastador. 



A sociedade não pode, jamais, perder a capacidade de se indignar com esta prática hedionda, havendo de censurar enfaticamente as camarillas farsantes que se revezam há decênios em Brasília, e que nada fazem a não ser criar programas sociais caricatos e de enfoques eleitoreiros. 


Esses impostores jamais vão ao âmago da questão porque não lhes interessa conviver com um povo sadio e instruído, para que não desenvolvam a capacidade de desmascarar seus embustes apeando-os do poder que lhes seduz arrebatadoramente.

O olho é míope porque não vê, ou melhor, finge, que o que leva uma criança a se prostituir é a fome, não somente aquela que força seu estômago a roncar diuturnamente, como também a de Educação, de Saúde, de Justiça Social. 

Este olho, hipermetrópico pela indolência em olhar as  necessidades básicas da maioria da população, transforma-se numa rapidez vertiginosa em olho de lince para enxergar na escuridão e trevas das injustiças os interesses obscuros e amorais de uns poucos.

Estes desmandos, olho omisso, resultaram na infecção que a imprensa diagnosticou. Se você não fosse tão frio e impenetrável, talvez tivesse perscrutado que a vontade de saborear um bife ou o desejo de possuir uma boneca é que leva uma menina ainda impúbere a vender seu corpo imaturo por 5 ou 10 Reais. 

Você, olho cruel, não tem condescendência nem com a infância, vítima inocente do seu arbítrio, por isso é o maior culpado por essa infâmia. 

E não me venha agora dar uma de arrependido, de diligente. Ou terá sido porque a situação chegou a tal ponto que se tornou necessário dar uma satisfação? 

Ou ainda, terá lhe doído realmente um pouquinho quando tocaram nesta ferida que jamais cicatriza, como de resto todas as outras chagas que, de tão intensas, lhe escapam ao controle?

Há de se combater, sim, olho incompetente, a concupiscência degradante de adultos degenerados  com seres tão pequenos. Não se pode contemporizar com estes pervertidos que abusam, seviciam, corrompem, achacam e estupram nossas crianças. 

Mas a cura definitiva compete a você, olho impassível, lograr êxito. Quando houver vontade política você, com certeza, tirará os infantes dos meios promíscuos em que vivem, dando-lhes alimento, saúde, educação e lazer. 

Só assim não terão de trocar sua chupeta por alguns trocados conseguidos através da oferta em holocausto do seu pequeno corpo em desenvolvimento.

Livre-nos deste flagelo, olho roxo. Talvez ainda haja tempo para você curar o trauma que este soco violento lhe causou!

Autor: José Henrique Vaillant - agosto/2001

sábado, 30 de março de 2013

Nostradamus errou mesmo?

Michel de Nostredame ou Miquèl de Nostradama
dez/1503 - jul/1566 - profeciasoapiceem2036.blogspot.com

Michel de Nostredame, secularmente conhecido por Nostradamus, teria previsto a ocorrência do fim do mundo para este ano, mas numa análise materialista,  considerando-se tal fim  como a destruição física literal do planeta, o misto de profeta, médico e petisco desejado pela Santa Inquisição a transformar-se em churrasco, errou. 
  

Não é aconselhável, no entanto, precipitar-se no julgamento e considerá-lo um charlatão dos tempos medievais, pois ninguém pode afirmar com certeza que conceitos ele tinha de finitude.


Por exemplo, se considerasse como fim o ápice da contradição humana, que busca febrilmente preservar e dotar longeva a vida, ao mesmo tempo em que cria dispositivos igualmente eficientes para dizimá-la em segundos, o visionário acertou! 

A humanidade parece ter atingido neste final de milênio seu mais alto grau de incoerência, traduzida pela convivência com a  ambivalente tecnologia, que tanto salva quanto mata, tanto preserva quanto destrói. 

Terá sido este o fim preconizado, não o do mundo físico, mas o da derrocada moral que eliminou o instinto da compaixão e solidariedade que norteava a configuração do relacionamento  humano na terra?

A indústria bélica jamais experimentou tamanha evolução em tão pouco tempo. 

A tecnologia do mal  tornou obsoletos os mísseis teleguiados de longo alcance, as bombas nucleares já estão virando peças de museu,  e já se fala em armas mais mortíferas e de investimentos proporcionalmente menores dada a relação “custo/benefício” - com  a utilização do laser em  mais larga escala.

São as chamadas armas inteligentes ou limpas, quer dizer, as que só fazem vítimas do lado mais fraco, não somente nas guerras em si, como pela devastação legada a posteriori.

Enquanto bilhões de dólares são destinados a essa terrível finalidade, ampliam-se desesperadamente as desigualdades sociais na Terra, com populações inteiras padecendo o flagelo da fome, da doença, da ignorância e da ausência total de perspectivas que pudessem dar-lhes um único sentido para o viver. 

Segundo recente documento da ONU, “a primazia dos mercados concentrou poder e riqueza em um grupo seleto, com o mundo correndo desenfreadamente para uma maior integração, conduzido principalmente por forças econômicas e orientado sobretudo por uma filosofia de lucratividade do mercado e eficiência econômica”.

Este talvez tenha sido o fim que o profeta previu. A revolução e  o desenvolvimento tecnológico em benefício de uma parcela menor e mais poderosa de seres humanos, alicerçados sobre a dor e desespero dos demais.

Se previu conceitualmente assim, ele acertou! Talvez nós é que não tenhamos percebido que este é um fim ainda pior do que se tivéssemos sido simplesmente varridos do Planeta! 

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em agosto/1999 

E o bolo solou...


Brasil. Década de 1970. País do futuro, que deveríamos deixá-lo se não o amássemos. País onde o  petróleo era nosso e o nacionalismo uma condição básica para a sobrevivência.

Naquela época reinava com muita desenvoltura o guru Delfim Neto, ministro da Fazenda que preconizava para o povão o arrocho e as dificuldades como forma de desenvolvimento. Sua tirada predileta: - precisamos deixar o bolo crescer para depois dividi-lo.

Brasil. Véspera do século XXI. O futuro não chegou e está difícil amá-lo. A vontade é deixá-lo o mais rapidamente possível, fugir de um progenitor com tendências infanticidas.

 
O bolo? Bem, parece que não usaram o fermento correto. Não cresceu e continua mal dividido. Também, pudera, Figueiredo, Sarney e os Fernandos são por acaso bons confeiteiros? E ainda usando ingredientes deteriorados produzidos em Brasília?

O fato de o bolo não ter crescido, e suas gordas fatias terem continuado a ser devoradas por poucas mas privilegiadas bocas gerou conseqüências desastrosas, com repercussão especialmente negativa na área da Saúde Pública, e não é difícil entender porquê: 

Um corpo mal alimentado, desnutrido e sujeito a agressões por toda a sorte de microorganismos, vírus e bactérias que dividem seu habitat promíscuo, aliado a uma mente conturbada por dúvidas e indecisões acerca do futuro, subjugada por injustiças sociais acintosas, não pode ter saúde. 

E aí entra um raciocínio simples e lógico: a melhoria da saúde da população passa, em primeiro lugar, pela melhoria das condições de vida dessa população, e para que isso possa acontecer é necessário dividir igualitariamente o bolo.

Enquanto isso continuaremos a conviver com filas intermináveis de doentes a mendigar junto aos órgãos públicos, que nunca funcionam, uma consulta médica ou um medicamento. 

Continuaremos a contemplar hospitais hiperlotados, sem a mínima condição sequer de higiene, com gente morrendo pelos corredores abarrotados, sem atendimento, contraindo infecções; bebês morrendo em série nas maternidades; pessoas idosas que só conseguem marcar uma consulta para daqui a 1 ou 2 anos, ou seja, muitos deles, post mortem. 

Na área odontológica então, nosso "terceiro-mundismo" se insinua explicitamente. Somos o país dos banguelas e das próteses antiestéticas . Sabem por quê? Porque os dentistas que prestam serviços para estados e municípios só existem para respaldar belos discursos de campanha política.

Pensam eles, os políticos: lamentavelmente não temos recursos para tudo, não é mesmo? Por que cuidar de saúde se temos coisas mais prioritárias? Antes de tudo temos de salvar os bancos, temos que comprar os deputados, temos que garantir nossa sobrevivência política. Depois consertaremos o forno e faremos um belo bolo. Talvez até cantemos para os sobreviventes o parabéns...  

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em julho/1997