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Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Interpretando a charge 11 - Cadê o PIB que estava aqui? - O gato comeu...


O desenho de J.Lima, tem como plano de fundo o Palácio da Alvorada, residência oficial da presidente da República. 

Em primeiro plano, Dilma Roussef aterrorizada pelo "gênio" Chico Anísio, que por conta da crise econômica que o país vem atravessando não sai de uma lâmpada mágica, mas de uma vela.

Ele lembra a uma amedrontada presidente que o PIB pequenino de 2012, e o que se projeta também reduzido para 2013 pode complicar seu projeto de se reeleger nas eleições presidenciais do ano que vem.

O polegar e o indicador de Chico nesta posição ilustravam o bordão famoso "E o salário oh!", que ele pronunciava sempre ao final de uma palhaçada, uma asneira qualquer de seus alunos ignorantes da Escolinha do Professor Raimundo, programa humorístico que o comediante mantinha na Rede Globo.

Ao fundo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, retratado como a personagem de "O Grito". No original do pintor norueguês Edvard Munch, a figura andrógina (que apresenta traços e comportamentos imprecisos) aparece como um ser atormentado, que demonstra estar passando por uma crise de existência.


Qualquer semelhança com um ministro que se encontra envolvido por tantos problemas..., não é mera coincidência. 

O verdadeiro "O Grito" (ao lado) é uma obra composta por quatro telas. A mais famosa, de 1893, é tão icônica que foi arrematada na não menos icônica casa de leilões Sotheby's, com sede em Londres, por nada menos de 120 milhões de dólares, a pintura mais cara da história vendida em leilão.

Em tempo: PIB (Produto Interno Bruto) é um dos mais importantes e usuais indicadores a diagnosticar a saúde de uma economia. Ele representa, monetariamente, tudo o que um país, ou uma região, produz em bens e serviços finais, ou seja, o pãozinho, o sapato, o automóvel, a moradia, etc. 

Quanto mais baixo for o PIB, menos o país (no caso aqui) produziu, isto é, sua economia vai mal das pernas. Em 2012, o PIB brasileiro foi 0,9%, percentual ridículo comparado com 5 ou 6% que, noto nos debates entre especialistas, parecem ser os números ideais. E para 2013 estes especialistas projetam 2,7%, mais alto que o índice de 2012, mas cerca da metade do ideal.

O fator mais preponderante da variação do PIB é o consumo. Quanto mais a gente compra, mais o PIB sobe. Se compramos menos, ele cai. Isso quer dizer que a coisa não está tão maravilhosa como gosta de propagar o "guvernu dus cumpanhêro"!


Autor: José Henrique Vaillant
www.recantodasletras.com.br/autores/josevaillant

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Déficits municipais: todos sabem, poucos veem. Ou, cada prefeito que entra proclama herança maldita, mas deixa também a sua


Em Contabilidade, uma das primeiras lições que o estudante aprende, um tanto incompreensível, é a de que tudo o que entra é débito e tudo o que sai é crédito da conta ou rubrica a que se esteja referindo. 

A débito da conta "Caixa", por exemplo, é feito o lançamento dos valores que entram e o crédito dos que saem. 



Esta é uma curiosidade do mundo dos números, dos conceitos teóricos, da mesma forma que "prêmio" num contrato de seguro não é o que se recebe como indenização do sinistro, mas o que se paga pela apólice.


Manipular a Contabilidade e fazer dela um instrumento para ludibriar pessoas e instituições tornou-se rotina no Brasil. Maquiagem de balanços e manipulação dos números visando a sonegação de impostos são práticas comuns de poucas exceções acobertadas por uma ciência que estuda e pratica as funções de orientação, controle e registro dos atos e fatos de uma administração econômica, mas extremamente vulnerável e inerte às maquinações do homem. 

Também, esse negócio de considerar débito um ativo e crédito um passivo não é mesmo coisa de se levar a sério...

Se os números oficiais são muitas vezes forjados visando fornecer uma imagem simpática de determinada empresa ao grande público, ainda que fictícia, imagine os não-oficiais. 

É o que se tem percebido nestes primeiros meses a respeito dos déficits encontrados por grande parte das novas administrações municipais, exceto pelas reeleitas, evidentemente. 

Aqui mesmo na região, administradores se arvoram em propalar os rombos herdados dos antecessores, numa algazarra que parece refletir mais satisfação que inquietação, com os números balouçando ao sabor do vento de acordo com os interesses de cada um. 

Se o antecessor era um adversário mais simpático, atribui-se-lhe um número melhor digerível; se era um contendor renitente, um ranheta ou inimigo, carregam-se nos algarismos.

O intuito parece que não tem sido informar, mas difamar. O objetivo não é esclarecer, a estratégia é confundir. Quanto mais alarmante e de maior alarido for o montante do déficit,   melhor para o "herói" ou para a "heroína" que estoicamente conseguirá saneá-lo. 

Na pior das hipóteses, já é uma desculpa antecipada por eventuais fracassos ou incapacidade gerencial. Dívidas que sequer estão vencidas, recomposições e renovações creditícias, ainda que lastreadas na arrecadação, previstas nos orçamentos, muitas vezes são englobadas pelo total das parcelas vincendas por absoluta má-fé, apenas para robustecer os números. 

É sintomático que não convoquem a imprensa para prestarem informações oficiais, tim-tim por tim-tim, caso a caso, conta a conta. Isso não interessa, da mesma forma que divulgar os bons resultados porventura encontrados, nem pensar.

Não é segredo que a maioria dos estados e dos municípios brasileiros só trabalha no vermelho. Déficits, contas pendentes, atrasos são rotina. 

As pessoas que hoje têm o poder e que o tenham exercido antes sabem como é o aperto e até podem ter deixado no passado os seus números negativos também. 

Mas há que separar o joio do trigo, tudo tem de ser proporcional. Se um município tem um déficit incompatível com o seu tamanho, com a dimensão de sua atividade econômica, com as obras e outros benefícios realizados aquém dos recursos recebidos para tais fins, o indício de crime é forte. E aí existe a Lei, que também, estranhamente, de pouco se valem.

Este deveria ser o desafio de cada prefeito. Auditar a casa com seriedade, trazer à baila os números genuínos, mostrar a real situação de seu município seria simples e denotaria sinceridade, autenticidade de intentos. 

Querer jogar bonito para a galera sem razão para as firulas, além de ridículo é um desserviço ao seu estado ou ao seu município.

Uma cruzada pelo resgate da Contabilidade, uma ciência que tem de ser exata a despeito das inexatidões de princípios éticos.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em fevereiro/2001

sábado, 30 de março de 2013

E o bolo solou...


Brasil. Década de 1970. País do futuro, que deveríamos deixá-lo se não o amássemos. País onde o  petróleo era nosso e o nacionalismo uma condição básica para a sobrevivência.

Naquela época reinava com muita desenvoltura o guru Delfim Neto, ministro da Fazenda que preconizava para o povão o arrocho e as dificuldades como forma de desenvolvimento. Sua tirada predileta: - precisamos deixar o bolo crescer para depois dividi-lo.

Brasil. Véspera do século XXI. O futuro não chegou e está difícil amá-lo. A vontade é deixá-lo o mais rapidamente possível, fugir de um progenitor com tendências infanticidas.

 
O bolo? Bem, parece que não usaram o fermento correto. Não cresceu e continua mal dividido. Também, pudera, Figueiredo, Sarney e os Fernandos são por acaso bons confeiteiros? E ainda usando ingredientes deteriorados produzidos em Brasília?

O fato de o bolo não ter crescido, e suas gordas fatias terem continuado a ser devoradas por poucas mas privilegiadas bocas gerou conseqüências desastrosas, com repercussão especialmente negativa na área da Saúde Pública, e não é difícil entender porquê: 

Um corpo mal alimentado, desnutrido e sujeito a agressões por toda a sorte de microorganismos, vírus e bactérias que dividem seu habitat promíscuo, aliado a uma mente conturbada por dúvidas e indecisões acerca do futuro, subjugada por injustiças sociais acintosas, não pode ter saúde. 

E aí entra um raciocínio simples e lógico: a melhoria da saúde da população passa, em primeiro lugar, pela melhoria das condições de vida dessa população, e para que isso possa acontecer é necessário dividir igualitariamente o bolo.

Enquanto isso continuaremos a conviver com filas intermináveis de doentes a mendigar junto aos órgãos públicos, que nunca funcionam, uma consulta médica ou um medicamento. 

Continuaremos a contemplar hospitais hiperlotados, sem a mínima condição sequer de higiene, com gente morrendo pelos corredores abarrotados, sem atendimento, contraindo infecções; bebês morrendo em série nas maternidades; pessoas idosas que só conseguem marcar uma consulta para daqui a 1 ou 2 anos, ou seja, muitos deles, post mortem. 

Na área odontológica então, nosso "terceiro-mundismo" se insinua explicitamente. Somos o país dos banguelas e das próteses antiestéticas . Sabem por quê? Porque os dentistas que prestam serviços para estados e municípios só existem para respaldar belos discursos de campanha política.

Pensam eles, os políticos: lamentavelmente não temos recursos para tudo, não é mesmo? Por que cuidar de saúde se temos coisas mais prioritárias? Antes de tudo temos de salvar os bancos, temos que comprar os deputados, temos que garantir nossa sobrevivência política. Depois consertaremos o forno e faremos um belo bolo. Talvez até cantemos para os sobreviventes o parabéns...  

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em julho/1997

quarta-feira, 27 de março de 2013

Dança com lobos

Delfim Neto, guru da Economia
na época dos generais
Delfim Neto, guru da economia no Brasil dos generais dizia há vinte e tantos anos: "Precisamos deixar o bolo crescer para depois dividi-lo".

FHC também dizia: "Deixemos o livre mercado definir os rumos da economia. Depois virá a justiça social".

Lula fez coro: "A economia fica como está, não nos lançaremos em aventuras ou em atitudes heterodoxas. Vamos crescer de forma sustentável, com responsabilidade".



Moral da história: o bolo da Ditadura gorou por falta de fermento e excesso de coturnos nos pescoços dos cozinheiros idealistas, e acabou sendo devorado mesmo cru pelos arautos da democracia neoliberal. 

Agora, pior: os companheiros fizeram novo arremedo da guloseima, só que devoram-na antes até de assada porque, além da fome, precisam do forno desocupado para fazer pizzas.

Mas ainda restam cactos, e quando acabarem, muito provavelmente se complete o vaticínio do mestre Carlos Heitor Cony, que disse certa feita: 

"Depois da exploração do homem pelo homem veio a fase da exclusão em que vivemos agora, com os menos capazes sendo postos de lado. O terceiro estágio poderá perfeitamente ser a eliminação pura e simples destes".

Hitler, no túmulo, deve estar em frenesi!


Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em junho/2004

Bolsas caem, estômagos roncam


É impressionante a fragilidade dos nossos planos econômicos. 

À exceção do Real, todos os seus predecessores sucumbiram fragorosamente nas primeiras dificuldades, onde alguns não chegaram a 90 dias de vigência.

O próprio Real, que se mostrava eficaz contra a mais terrível geradora das injustiças sociais - a inflação, já não se sente tão seguro à mercê dos especuladores, as turbulências do momento.

Os motivos para essa fragilidade a gente sabe, e sem querer entrar em minudências pode-se resumir, convictamente, que é ocasionada pela negligência dos políticos que tergiversam quando convocados a deliberar sobre as reformas imprescindíveis para a sustentação da estabilidade monetária.

Sem essas reformas, quem tem a obrigação de proteger a moeda contra os especuladores é exatamente - até quando? - os que não a possuem. 


Ou a recessão, a estagnação e o desemprego não atingem somente a população pobre?

A minoria abastada, apesar de também sentir um certo desconforto em relação à sua qualidade de vida não sofre tanto, uma vez que sempre encontra mecanismos de proteção.

Toda vez que um burocrata da economia pega da caneta e rabisca seu jamegão autorizando a elevação dos juros, especialmente um aumento brutal como este mais recente, interfere imediatamente no feijão-com-arroz do pobre. 

E estas intervenções ou outras modalidades ainda mais perversas sempre ocorrerão em economias instáveis à medida da oscilação do bom humor internacional. 

Se Bill Clinton acordar mal disposto, se Hussein resolve brincar de jogos de guerra ou se os tigres asiáticos num belo dia decidirem regredir à infância e virar gatinhos, nosso frágil e incipiente Real sofre as consequências, ou melhor, quem não os tem nem nunca teve.

Acorda, Themer! Acorda, ACM! Acordem todos vocês, políticos, do sono da inércia, da veleidade e da incúria.

Esqueçam por um momento seus interesses pessoais e pensem no Brasil como um todo. 

Consolidem definitivamente nossa economia, protejam-na contra a pirataria, dotem-na de estruturas que a façam segura por si só. 

Feito isto, teremos dado um grande passo no sentido de dificultar, ou mesmo impedir, que um Nahas qualquer possa reduzir ainda mais os já escassos grãos de cereais que ainda conseguem impedir, a duras penas, o roncar dos estômagos de uma considerável parcela dos nossos compatriotas.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em novembro/1997