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quinta-feira, 4 de julho de 2013

"O momento exige a grandeza, a inteligência e os valores pessoais de um estadista — qualidades que Dilma não tem"

MACROMINISTÉRIO -- Dilma (na foto, com governadores), seus
39 ministérios e os mais de 20.000 altos funcionários de "livre nomeação"
não vieram  com uma única ideia (Foto: Roberto Stuckert Filho)

Por J.R.Guzzo

Um caderno de anotações sobre os fatos que vêm acontecendo no Brasil durante as três últimas semanas poderia conter, com bastante precisão e dentro da “margem de erro” tão útil aos institutos de pesquisa, o registro das seguintes realidades:

♦ A presidente Dilma Rousseff simplesmente não  está à altura da situação que tem o dever de enfrentar. Não sabe o que fazer, o que acha que sabe está errado, e, seja lá o que resolva, ou diga que está resolvendo, não vai ser obedecida na hora da execução.

O momento exige a grandeza, a inteligência e os valores pessoais de um estadista. Dilma não tem essas qualidades.

O autor deste artigo também não sabe o que deveria ser feito — para dizer a verdade, não tem a menor ideia a respeito. Em compensação, ele não é presidente da República.

♦ A mais comentada de todas as propostas que a presidente anunciou para enfrentar a crise foi um misterioso plebiscito, do qual jamais havia falado antes, para aprovar uma nova Assembleia Constituinte destinada exclusivamente a fazer uma “profunda reforma política”.

Não houve, também aqui, a mínima preocupação em pensar antes de falar, para ver se existiria alguma ligação entre essa ideia e a possibilidade real de executá-la dentro das leis vigentes. Não existia, é claro.

Resultado: a proposta de Dilma morreu em 24 horas, afogada num coro de gargalhadas. A hipótese otimista é que o governo esteja a viver, mais uma vez, um surto agudo de desordem mental e descontrole sobre seus próprios atos.

A pessimista é que o PT, sob o comando do ex-presidente Lula, esteja querendo empurrar Dilma para uma aventura golpista.

♦ A única “reforma política” que o PT quer fazer, como se sabe há anos, é a seguinte: tirar do eleitor brasileiro o direito de escolher os deputados nos quais quer votar, obrigando a todos a votar numa “lista fechada” e composta exclusivamente de nomes que os donos dos partidos escolherem; “financiamento público” para as campanhas, ou seja, sacar dinheiro do Tesouro Nacional e entregá-lo diretamente aos políticos nos anos eleitorais.

Além dos milhões que já recebem pelo “caixa dois” das empresas privadas (e que o próprio Lula, numa “entrevista” armada durante o mensalão, considerou algo perfeitamente normal), receberiam também dinheiro que vem direto do contribuinte.

♦ A “reforma” Lula-PT não propõe nenhuma mudança, uma única que seja, em nada daquilo que a população realmente quer que mude, e que tem sido um dos alvos principais da ira das ruas: o fim de qualquer dos privilégios grotescos dos parlamentares, como automóvel, casa de graça, verbas que podem gastar como quiserem, e que acabam sistematicamente no próprio bolso ou no de sua família.

Podem faltar quanto quiserem. Vendem ou alugam seus assentos a “suplentes”.

A reforma petista mantém o absurdo sistema eleitoral que nega ao cidadão brasileiro o direito universal de “um homem, um voto”. Recusa o voto distrital, adotado em todas as democracias verdadeiras do mundo. Nada disso: num ambiente de catástrofe, em que até uma criança de 10 anos sabe que o povo tem pelos políticos uma mistura de asco, desprezo e ódio, o PT quer dar ainda mais dinheiro a eles.

♦ A presidente disse que “está ouvindo” os indignados que foram às ruas. Mas não está.

Se estivesse, não existiria, em primeiro lugar, o inferno que é a vida diária de milhões de brasileiros, a quem o governo ignora; porque dá o Bolsa Família, anuncia vitórias imaginárias e acha que governar é fazer truques de marquetagem, convenceu-se de que o povo está muito bem atendido.

Escutando os protestos?

Ainda em março, Dilma recusou uma suíte de 80 metros quadrados num hotel de luxo da África do Sul, por achar que era pequena demais. A culpa, é claro, foi passada ao Itamaraty.

Mas, quando o fato se tornou conhecido, a presidente não disse nenhuma palavra de desculpa, nem mandou o Itamaraty tomar alguma providência para que um fato assim não se repita.

Foi adotada uma única medida: de agora em diante o governo não vai mais revelar nenhum dado das viagens presidenciais.

♦ Ao longo de vinte dias, Dilma, seus 39 ministros e os mais de 20 000 altos funcionários de “livre nomeação” do governo não vieram com uma única ideia que pudesse merecer o nome de ideia.

Suas propostas demoraram até a semana passada para aparecer — e, quando enfim vieram, anunciaram coisas desconectadas com a realidade ou entre si próprias, pequenas na concepção e nos objetivos, incompreensíveis ou apenas tolas.

Foram tirando ao acaso de uma sacola, e jogando em cima do público, as miudezas que passaram por seu circuito mental nestes dias de ira: mudar a distribuição de royalties do petróleo, importar 10 000 médicos estrangeiros, punir a “corrupção dolosa” como “crime hediondo” (Dilma, pelo jeito, imagina que possa haver algum tipo de corrupção não dolosa), dar “mais recursos” para isso ou aquilo, melhorar a “mobilidade urbana”. É puro PAC.

♦ No jogo jogado, tudo isso quer dizer três vezes zero.

Numa hora dessas eles vêm falar em royalties, assunto técnico que exigirá meses ou anos para ser reformulado? Importação de médicos? Só agora descobriram que faltam médicos no serviço público por causa da miséria que lhes pagam? Só depois que o povo foi para a rua perceberam que a corrupção é um crime abominável?

Se os que mais roubam estão dentro da máquina do governo, como acreditar num mínimo de sinceridade nesse palavrório todo? A presidente e seu entorno anunciaram medidas que só o Congresso pode aprovar. Outras dependem do Judiciário, ou de Estados e prefeituras. O que sobra é o fim do resto.

♦ Os números apresentados até agora não fazem nenhum sentido.

Falou-se em aplicar “50 bilhões” de reais em obras de “mobilidade urbana”. Que raio quer dizer isso? Parece que se trata de melhorar o transporte em metrô, trens e ônibus — mas não existe a mais remota informação concreta sobre como fazer isso na prática, nem onde, nem quando.

Não é uma providência de verdade; é apenas uma cifra chutada e um amontoado de dúvidas. O trem-bala, por exemplo — será que entra nessa conta?

Há algum projeto de engenharia pronto para alguma obra a ser feita?

Alguém no governo sabe dizer onde estão os tais “50 bilhões”?

Não é surpresa que um grupinho de garotos do Movimento Passe Livre tenha saído de um encontro com Dilma dizendo que ela é “completamente despreparada” no assunto. Os números citados para a saúde são igualmente desconexos: 7 bilhões de reais para “20 000” unidades de atendimento médico.

Quais unidades? Onde? Esses “7 bilhões”, se existissem, equivaleriam a 20% do que se estima que será gasto nas obras para a Copa de 2014. Dá para entender? É a fé cega na incapacidade do povo brasileiro em fazer contas.

♦ A marca mais notável da defesa que o governo fez de si próprio, durante estes dias de revolta, é que não há uma defesa. Pedem que o povo reconheça as “transformações” que fizeram no país.

Quais?

Após dez anos de governo popular do PT, o Brasil está em 85º lugar no IDH — subiu apenas 5% em todo esse tempo, e teve crescimento praticamente nulo durante os anos Dilma.

Isso ocorreu num período de dramáticos avanços na renda de todos os países pobres: apenas entre 2005 e 2011, 500 milhões de pessoas saíram da pobreza em todo o mundo.

O governo do petismo transformou o Brasil num país com 50 000 assassinatos por ano, e onde 75% da população não é capaz de entender plenamente o que lê. A rede pública de saúde foi transformada num monstro em que o cidadão pode esperar seis meses, ou um ano, por um exame clínico, e pacientes aguardam atendimento jogados no chão de hospitais, como se vivessem num país em guerra.

A transformação do sistema portuário criou um Brasil que não consegue embarcar o que produz nem desembarcar o que compra lá fora. Conseguiram, até, transformar o significado da palavra “corrupção”, ao venderem a ideia de que qualquer denúncia contra a roubalheira do governo é “moralismo” — ou seja, o erro é denunciar o erro.

♦ As ruas iradas de junho deixaram à vista de todos um fato que muita gente já sabe, mas quase nunca é mencionado: o ex-presidente Lula é um homem sem coragem. Líderes corajosos jamais se escondem nas horas de difi culdade brava. Ao contrário, vão para a frente, tomam posição nos lugares mais arriscados, e assumem a luta em defesa do que acreditam.

Não ficam escondidos da população, fazendo seus pequenos cálculos para descobrir o lucro ou prejuízo que teriam ao aceitar suas responsabilidades — pensam, apenas, no seu dever moral, nos seus princípios e nos seus valores.

Coragem é isso — e isso Lula não foi capaz de mostrar.

Onde está ele?

Na hora em que o Brasil mais precisou de uma liderança em sua história recente, o homem sumiu.

Vive dizendo que não há no mundo ninguém que saiba, como ele, subir no carro de som ou no palanque e “virar” qualquer situação de massas. Na hora de agir, trancou-se na segurança do seu esconderijo.

E a “negociação” — na qual também se julga um ás incomparável —, onde foi parar?

Para quem tem certeza de que negociou “a paz no Oriente Médio”, Lula teria de estar desde os primeiros momentos tratando de montar algum tipo de negociação.

Na vida real, limitou-se a cochichar com subalternos, dar palpite e falar mal dos outros. Lula sempre fez questão de achar “inimigos”. Pois achou, agora, todos os que poderia querer.

♦ Ficou claro que o governo está errando há dez anos na avaliação que faz da imprensa livre. Confundiram tudo: acharam que a internet, com a sua audiência sem limites, estava anulando jornais e revistas, quando na verdade tem feito exatamente o contrário: reproduz o que sai na imprensa para milhões de pessoas que não leram o noticiário escrito.

E agora?

A internet mostrou-se um multiplicador incontrolável do conteúdo da imprensa, e a mais poderosa alavanca de notícias que jamais se viu no país.

Vídeos amadores, diversos deles falados em inglês com legendas em português e dirigidos aos internautas do mundo todo, apresentaram denúncias devastadoras e bem articuladas sobre a insânia governamental que levou o povo à rua.

Em apenas uma semana, de 14 a 21 de junho, um desses vídeos, entre dezenas de outros, teve mais de 1,3 milhão de visualizações. Todas as informações que estão ali foram tiradas da imprensa livre.

O governo não entendeu nada. Mas desta vez não teve como mentir: não conseguiu dizer que as manifestações eram invenção da “imprensa de direita”.

♦ Os descontentes de junho mostraram mais uma vez, como a Bíblia nos diz em Provérbios 16:18, que “a soberba vem antes da queda”.

Nunca, possivelmente, o Brasil esteve sob o comando de gente tão soberba quanto Lula, Dilma e os barões do PT, e tão à vontade em exibir sua arrogância.

Estão levando, agora, o susto de suas vidas, ao descobrirem que marquetagem, demagogia e exploração da ignorância não são mais suficientes para desviar a atenção do povo para o desastre permanente que causam ao país.

Espantam-se que o povo faça contas — e se sinta roubado com uma Copa do Mundo que pode acabar custando até 35 bilhões de reais, mais do que as últimas três somadas.

Espantam-se que as suas esperanças de livrar da cadeia, com velhacaria jurídica, os mensaleiros mais graúdos estejam desabando.

Espantam-se ao saber que muita gente está cada vez mais cheia de gastar cinco horas diárias para ir ao trabalho e voltar para casa.

Desafiaram o ensinamento básico de Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos durante algum tempo; pode-se enganar alguns durante todo o tempo; mas não se pode enganar a todos durante o tempo todo”.

Estão colhendo o que semearam.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Redução da maioridade penal já; ou, se cada defensor dos coitadinhos adotasse um, não haveria tantos menores infratores barbarizando


Não é mais possível continuarmos a conviver com a terrível incoerência de que o guarda-roupas de 16/17 anos tem a faculdade de escolher o presidente da República, mas não sabe o que está fazendo quando trafica drogas, estupra, barbariza, mata, crimes que na melhor das hipóteses para as famílias de suas vítimas sedentas de justiça e no desatino da dor correspondem a meros três anos "apreendido".

Depois, os anjinhos de asas douradas recebem a chancela “apto para o convívio social”, com a ficha criminal limpa, ainda que em sua vida pregressa também tenham explodido bombas em jardins de infância.

O amável leitor, a graciosa leitora, que me desculpem a estultice, mas queria entender como é que a redução da maioridade penal, que me parece ser tema simpático à grossa maioria da população, e no caso específico talvez mais ainda entre os menos esclarecidos (os que mais votam no PT), seja tão veementemente rejeitada pelo partido.

Soa um tanto incoerente com a retórica populista, não é mesmo?

Não só o PT, justiça se lhe faça. Mas esta agremiação é atualmente sinônimo de poder praticamente absoluto, quase supremo, valendo dizer que, se quisesse, bastaria dar um peteleco no assunto "redução da maioridade penal" que ele deslocar-se-ia, num átimo, para o patamar inferior onde deveria estar.

Creio que nem os próprios jovens aceitem que um parrudão de 17 anos e 11 meses que mata, assombra, brutaliza, fique três anos, se tanto, recolhido…, digo, acolhido, até com a possibilidade de se hospedar em estabelecimento 5 estrelas na Suécia para se “ressocializar” às custas, inclusive, da sua própria vítima.

Sim, isso mesmo!

Lembram-se do garotinho João Hélio Fernandes, 6 anos, que foi arrastado pelas ruas de um subúrbio carioca preso pelo cinto de segurança, e um bandidão "dimenor" dentro do veículo dizia às gargalhadas para todos os passantes que aquele ser indefeso, esfolado cruelmente era o "judas" deles?

Não fosse a grita da imprensa, me lembro bem, o criminoso, protótipo da covardia, ficaria hospedado num estabelecimento 5 estrelas da Suécia à custa do seu, do meu, do nosso dinheiro, enquanto contribuintes, inclusive à custa dos próprios pais do menino barbaramente torturado até a morte!


Que diabos estará acontecendo, alguém pode explicar? É isso que chamam inferno?

Esses monstros incendeiam dentista, matam com uma frieza e crueldade espantosa como fizeram recentemente a Victor Hugo Deppman, estupram, vejam bem, até dentro de ônibus em movimento, e logo começam a chegar em defesa deles, aos borbotões, seus defensores apaixonados!

Por que não levam os bandidinhos para casa? Por que não os adotam, deixando-os conviverem com os filhos legítimos a fim de adquirirem, por osmose, os sentidos de humanidade, já que são bestas em forma humana?

Na infância e adolescência há uma sensibilidade maior às influências corruptoras criminais provenientes do seu meio ambiente.

Jovens e crianças estão mais sujeitos ao incitamento, persuasão à cumplicidade, ao encorajamento ou à ordem para o cometimento de crimes por parte de maiores.

Só não enxerga quem não quer que principalmente no crime organizado, a exploração de crianças e adolescentes se inicia cada vez mais cedo.

Não é mais do que hora, então, de rever todo esse velho, anacrônico, obsoleto, ultrapassado conceito de maioridade aos 18?

Basta de demagogia! Por que um jovem é investido como eleitor, presumivelmente equipado de lucidez e discernimento para decidir o futuro do país, porém inapto a responder pelos atos de selvageria?

Como deixá-lo cometer os delitos mais graves, hediondos, levando o paroxismo da dor aos entes queridos das vítimas, e nada lhe acontecer senão a simples sujeição às normas esdrúxulas e pusilânimes da legislação especial, valendo dizer, punição nenhuma?

Na Inglaterra, quem pratica crimes hediondos é apenado a partir dos 10 anos; nos Estados Unidos a coisa varia em 50 estados, mas basicamente são responsabilizados desde os 12; em Portugal, o cidadão pode ser condenado a partir dos 16 anos, o mesmo ocorrendo na Argentina, Espanha, Bélgica e Israel.

Na Alemanha, no Japão e na Itália, a partir dos 14 anos o rigor da lei se abate sobre todos, que no Egito é aos 15, na França, aos 13, na Escócia, aos 8, na África do Sul, aos 7 e até aos 6, como no México.

No Brasil, onde quem é brasileiro não parece ser Deus, mas seu rival milenar, garotão impiedoso, cínico, cruel, insensível, de caráter tão selvagem quanto o de uma cascavel pode cometer os gestos mais tresloucados sob o olhar contemplativo e embevecido da lei.

Não se pode fotografá-lo, nem algemá-lo, nem citar seu nome, nem conduzi-lo em camburões, muito menos confrontá-lo com a dor e o desespero de um pai e de uma mãe que perderam seus filhos violentamente na flor da idade, sepultando sonhos e esperanças pela falta de uma gota de misericórdia e clemência de um coração frio, pétreo, calculista!

Parece mais que o Estatuto da Criança e do Adolescente - o ECA, pretende com isso impedir que suas futuras vítimas, reconhecendo-o, tenham alguma chance de sobreviver!

Desculpem o trocadilho infame: Eca, que nojo!


Autor: José Henrique Vaillant

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Decepção

O balanço do primeiro ano do governo petista do presidente Lula, se não chega a ser decepcionante, traz inquietações e muitas dúvidas sobre sua capacidade de gerir o Brasil consoante as enormes expectativas, sonhos e esperanças do povo brasileiro. 

Um governo que prometia mudanças estruturais sem precedentes, que prometia transformar a doutrina de espoliação e injustiças, tão enfático na disposição de combater a torpe ordem estabelecida da exploração e do sofrimento, não fez nada que trouxesse o menor indício de que haverá realmente mudanças. 

A Educação, a Saúde, a Segurança Pública e outros setores continuam no mesmo patamar do descaso e da incompetência.

Recebido invariavelmente com pompa e circunstâncias nos quatro cantos do mundo (o presidente que tanto combatia as viagens de seu antecessor FHC, viajou este ano mais do que aquele no primeiro ano de mandato), este prestígio entre aspas começa a inquietar porque não é difícil perceber que os aplausos são condicionantes da mesmíssima ideologia de arrocho e de angústia para o povo brasileiro, mas equivalentes à devoção dos vorazes glutões especuladores internacionais.


A única coisa que está dando certo neste “governo da mudança” é exatamente o que nada mudou: a gestão da política econômica e financeira.

Os elogios às escâncaras de Fernando Henrique Cardoso e Armínio Fraga a Lula são a prova cabal de que o país continua trilhando a mesma cartilha que o ex- metalúrgico tanto combatia. 

O eleitor, que já percebeu há muito tempo que o discurso do PT mudou, começa a dar sinais de mágoa e desilusão.

O partido que guerreava para aumentar os salários dos funcionários públicos, e que considerava a contribuição de inativos uma heresia, hoje defende justamente o contrário. 

O povo começa a compreender que as fulgurantes promessas de palanque eram apenas engodo para conquistar o seu voto, que o PT no governo ignora completamente o que seus candidatos juraram durante a campanha. 

O salário-mínimo, cujo aumento real o presidente Lula não pôde dar em 2003, porque acabava de assumir o mandato, ia estudar depois, etc. e tal, será algo em torno de R$ 15 em 2004, um requinte de perversidade que significa desesperança para o pobre, mas lhe garantirá mais palmas e elogios no exterior.

Muitos dos candidatos do PT às prefeituras e aos legislativos municipais no ano que breve se inicia estão com as barbas de molho (inclusive gente do nosso Vale do Itabapoana). 

Principalmente aqueles que não possuem uma identidade própria, um carisma político exclusivo, uma liderança natural peculiar independente deste ou daquele partido, em suma, aqueles que majoritariamente precisam andar a reboque do PT perigam transitar em 2004 por caminhos inóspitos, fustigados pela hostilidade dos espinhos.

É espantoso que na monumental edificação chamada Brasil, que urge tão complexas, urgentes e colossais reformas, nem uma parede foi ainda pintada, sequer foram adquiridas a broxa e a cal.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em dezembro/2003

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Chega de lágrimas; ou, segundo Carlito Maia (que eu apoio), quando a esquerda começa a contar dinheiro, converte-se em direita

A retórica do PT, antes de virar governo, era veementemente contra isto,
mas vê-se agora que alimenta o glutão ainda mais. Como era falso!
Charge extraída de http://livramentodiario.com.br
Como num jogo de futebol que o presidente Lula tanto aprecia, os primeiros quinze minutos é o chamado tempo que os adversários se estudam mutuamente, e a partir daí imprimem toda a força adaptando o talento e o vigor naquilo que consideram pontos fracos do contendor. 


O governo do PT, que teria vindo para sacudir as estruturas e implementar projetos pretensiosos de cidadania, visando resgatar a dignidade dos brasileiros está exagerando esse tempo. 

O próprio PT já admite que o chamado "espetáculo do crescimento" será iniciado somente em 2004, isto é, perdeu-se ¼ do tempo precioso, que voa, falando palavras de efeito e chorando lágrimas de emoção, porém sem nenhum benefício prático. 



O PT malhou muito as doutrinas divergentes como estratégia propagandista,  mas convergiu, entregou-se facilmente às linhas pragmáticas do capitalismo selvagem que tanto combatia. 

O resultado, que era de esperar, foi pancadaria por todos os lados. Engrossam o coro dos insatisfeitos políticos de fora e os de dentro do partido, e até de velhos companheiros de Lula. 

É crise da Saúde, da bancada radical, da questão agrária, do loteamento dos cargos, do ministro do STF que aponta czares no Planalto e, a mais recente delas, a do senador Eduardo Suplicy, que endossa tudo. 

A artilharia pesada que o governo enfrenta é o preço que o PT paga por ser incoerente, aplicando agora a cartilha que tanto condenou em governos predecessores, especialmente nos do ex-presidente FHC. 

É sintomático que o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, considerado por Lula e pelo PT como "gênio do mal" em tempos nem tão longínquos, faça agora rasgados elogios à política fiscal petista, absolutamente recessiva, imobilizadora a quaisquer movimentos de progresso e mel da especulação.

No lugar do espetáculo do crescimento, o que se viu foi uma série de denúncias de fisiologismo no governo, a distribuição indiscriminada de cargos onde as palavras qualificação e competência foram relegadas a um plano secundário (segundo Carlito Maia, quando a esquerda começa a contar dinheiro, converte-se em direita). 

"Nada pode ser mais nocivo do que converter o cargo técnico em recompensa", afirma o cientista político Helio Jaguaribe. 

A oposição tucana denuncia que sete em cada dez postos de confiança do governo estão sendo ocupados por aliados, que nem sempre atendem aos requisitos de competência. 

"Os críticos estão certíssimos em bombardear esse loteamento", conclui Jaguaribe. O desgaste atingiu em cheio o partido que sempre condenou o fisiologismo.

As lágrimas vertidas por Lula por ser solidário e sensível ao flagelo econômico e social de seu povo não podem ser um fim em si mesmas. 

Ato seguinte a elas é necessário dirigir também o sorriso das hienas aos conspiradores da causa que o levou ao poder. 

Será uma tragédia para o povo se o presidente se acostumar à ditadura das elites e suas lágrimas um dia vierem apenas e tão-somente pela emoção originária das músicas de câmara em Paris.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em outubro/2003