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Mostrando postagens com marcador Educação/Cultura. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 1 de maio de 2013

"A indignação que falta ao brasileiro decorre da falta de escolaridade"; ou, só a escola salva o Brasil!


Costumo dizer que entre as mais valiosas riquezas naturais do Brasil, a mais importante, pela facilidade de ser explorada, é a ignorância do povo. 

Essa riqueza é mais valiosa do que o Pré-Sal para os que dela se beneficiam. 

E não me refiro apenas aos políticos, embora sejam eles os seus maiores beneficiários. 

A ignorância do brasuca o faz ser explorado em todos os papéis em que é chamado a representar. 

É explorado como eleitor e é explorado como consumidor de bens e serviços. 

A classe política, os agentes econômicos em geral, os bancos em particular, a imprensa e até os profissionais liberais se beneficiam dessa “riqueza natural”. 

Só a escola salva o Brasil.
 
Pelo padrão da tributação vigente, a educação pública deveria ser igual ou melhor do que a da melhor escola particular do Brasil. Sem qualquer favor. 

Nos países escandinavos, com tributação semelhante, a Educação é de alto nível. 

Mas, como indignar-se com o desvio de dinheiro público se o brasuca não sabe que aquele dinheiro, que representa metade de tudo o que ele gastou, veio dele e, obrigatoriamente, deveria voltar a ele sob a forma de saúde, escola,segurança e transporte? 

A mudança deveria partir do eleitor mas ele está cego. 

Decididamente, não vejo como esse quadro possa ser mudado, pois o PT e os eleitos graças à ignorância não são loucos a ponto de cometerem suicídio político, fornecendo educação aos seus eleitores. 

A cabeça desses responsáveis pelos rumos do Brasil funciona assim: o eleitor não passa no vestibular? Que se crie um sistema de cotas, que se transforme a nota dois em nota sete mas, em nenhuma hipótese se eleve o nível da Educação pública, sob pena de perdermos nossos eleitores. 

Democracia sem escola é um veneno tão letal quanto a pior ditadura. É o que acontece conosco. 

A democracia faz muito mal ao Brasil. A ditadura da ignorância em que vivemos é caríssima.

Uma ditadura, por pior que fosse o ditador, seria mais barata e mais suscetível de provocar rejeição popular. 

Não tenho nenhuma esperança no Brasil!

Por Jayme Guedes - comentário "Onde estão os indignados do Brasil? Por que os brasileiros não reagem?", post publicado em 12/7/11 no blog do jornalista Reinaldo

domingo, 14 de abril de 2013

Sou cronista, pedreiro e pintor. Sempre, sempre, amador

-Paulinho, traga a sexta-feira 13. 

-Aqui está.

-Agora pegue a dama e vá dançar um pouco naquele piso.

Achei tão engraçado este diálogo entre um pedreiro e seu ajudante, que comecei a prestar mais atenção no linguajar desses trabalhadores. 


E fui me tornando mais íntimo de sua terminologia e de suas agruras a partir do momento em que passei a pôr literalmente as mãos na massa quando da necessidade de fazer os reparos e as manutenções do meu lar doce lar.

Explico: sendo de boa monta as referidas necessidades, mas inversamente proporcionais ao tamanho das finanças pessoais, resolvi assimilar um pouco a lida com areia e cimento, com argamassa e revestimento, com prumo e enquadramento, para não fugir à rima. 

Minha casa, por meus próprios braços, está se livrando paulatinamente da velha pecha de pobre e relaxada. Diria ela, enfatuada: - pobre sim, mas digna.



Nesta altura o amável leitor e a graciosa leitora devem estar se perguntando: e eu com isso? 


Calma, em troca de sua admiração ao meu talento multifacetado serei um adminículo (que contribui para) à sua cultura. Muita modéstia..., liga não. 

Para começar, você sabe o que é embolsar uma parede? Errou. Introduzir uma parede no bolso só o King Kong talvez conseguisse se usasse roupas. 

Se alguém embolsar a sua, e ainda assim você pagá-lo por isso, problema seu. 

Comigo a pessoa teria de realizar um desembolso se quisesse a minha parede. Se ele fosse emboçá-la, porém, eu quem o embolsaria.Sim. O que fazemos é emboçar, sem o L contido em ´polca´, um tipo de dança, mas que muitos entendem equivocadamente ser a fêmea do parafuso. 

Os que faço são emboços curvilíneos, ondulados, toques originados da inabilidade que pretendo o digníssimo admirador entender como um estilo neo-alguma-coisa, algo entre o barroco e o moderno.
O nome pedreiro é derivado do Latim petrarium, relacionado a pedras, leio na Internet. 

A pessoa que levantava paredes com pedras ou outro material era conhecido também como alvanel, ou alvenel, em algumas culturas da antiguidade. 

Daí a tal alvenaria. E quem estranhar tamanho contraste entre escrever umas mal-traçadas e entijolar, lembro que Agenor de Oliveira foi servente de pedreiro. 

A pequena, ínfima diferença é que ele começou servente e terminou Cartola, o gênio da música que produziu o hino “As rosas não falam”. 

Fichinha, comparado a mim, eh, eh, eh. 

P.S. Sexta-feira 13 é marreta, daquelas de uns 10 kg, que aconselho a você não se interessar por ela. 

E se o distinto leitor gosta de dançar agarradinho, sugiro enfaticamente procurar uma dama de carne e osso. A dos pedreiros costuma ser um pedaço de madeira de generosas proporções, gordo e robusto que, com dois braços, digo, dois cabos pregados, serve para compactar o solo para receber o concreto. 

Dependendo do tempo da dança, os braços humanos, digo, os cabos colados ao corpo costumam terminar pesando mais que a dama.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em janeiro/2011

sábado, 13 de abril de 2013

Curtíssimas: Arte?

www.noticiasnumclick.com.br
É impressionante como a atual música comercial/descartável é ruim e apelativa (poucas exceções)! 

Mais impressionante ainda a frenética adoração que as pessoas - especialmente os jovens - têm por estas caricaturas que beiram as raias do absurdo e do ridículo!

Creio que se os controladores dos meio de comunicações audiovisuais tivessem vínculos culturais mais fortes, haveria  como resgatar os legítimos representantes da arte musical, virtuoses da canção e da poesia como Djavan, Caetano, Milton, Chico, Gal e dezenas de outros mais. 

Enquanto estes fazem sucesso extraordinário n'além fronteiras, nosotros vamos "buchechando", rodando bambolê e encostando a bunda na boca da garrafa, na presunção totalmente equivocada de que estamos fazendo arte!

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em fevereiro/1998

quinta-feira, 7 de março de 2013

Vendem-se frases. É necessário resistir à legião demoníaca que fomenta a ignorância


Encimando a pequena mesa no centro de uma das cidades desse querido Vale, uma placa toscamente manuscrita: Vendem-se frases.


- O que o sr. está vendendo, moço?

- Frases, senhorita. Cada uma por 1 Real.

- Frases?

- Isso. Frases. A senhorita dá um tema e eu escrevo uma frase sobre ele.

- Mas isso eu mesma posso fazer. Saiba que sempre tiro as melhores notas em Redação na minha escola. Uma frase sai em poucos segundos. Por que eu gastaria 1 Real com a sua?

- As suas podem ser até mais valorosas, mas por acaso vive delas? Eu, sim; por isso, cobro.

A menina pensou um pouco e resolveu colaborar.

- Está bem. Escreva aí sobre a minha futura sogra, que não larga do meu pé.

- Risc., risc., risc... Aqui está.

- O que é isso? - A sogra de hoje foi a noiva de ontem. A noiva de hoje será a sogra de amanhã. Cuidado com a lei de causa e efeito.

- Lei de causa e efeito?




- Reflita bem.

Nesta altura muitos curiosos se acercaram do vendedor de frases, e em pouco tempo todos sabiam do que se tratava.

- Próximooô.

- Oi. Quero uma sobre meu marido, um bêbado inveterado.

- Risc., risc., risc... - Não se embriague de indignação. Mantenha-se sóbria de conceitos negativos e terá lucidez para encontrar a maneira de ajudá-lo.

- Outroooô. O senhor. 

- Para mim mesmo, um velho cansado e desiludido da vida.

- Risc., risc., risc... - A desilusão é uma ferramenta criadora de anticorpos que combatem o sentimento das perdas. E para descansar, o senhor terá a eternidade.

- Sua vez, madame.

- Sabe, seu fazedor de frases, minha cidade está tão feia, tão abandonada... Faça uma frase com enfoque em nossas autoridades.

- Risc., risc., risc... - Se um político é relapso em suas coisas particulares e também nas coisas públicas, ele é ao menos coerente no desmazelo. A incoerência se dá quando negligencia uma das duas. E quem pode acreditar numa pessoa incoerente?

- Quero uma frase rapidinha porque tenho de chegar na lotérica antes que feche. Vou receber minha bolsa família. Fale aí do nosso maravilhoso presidente.

- O senhor me desculpe, mas acabou minha inspiração. Vou-me embora.

- Ora, mas que fraseador ridículo. Seus três neurônios deram o fora?

- Não faço frases intelectualmente falsas. Se vender ao senhor uma frase sincera, desagrada-lo-ei certamente.

- Faça assim mesmo.

- Só se for de outro, pode ser?

- Serve.

- Risc., risc., risc... Aqui a tens. É do americano Adrian Rogers (1931/2005). Um período composto:

“É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade. Cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. 

O governo não pode dar para alguém aquilo que não tira de outro alguém. Quando metade da população entende a ideia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação. 

É impossível multiplicar riqueza dividindo-a”.

- Puxa! Não entendi nada.

- Reflita, senhor. Reflita bastante.

- Moço, moço. Espere. A saideira.

- Sem saideiras.

- É que eu gostaria que o senhor fizesse uma frase de si para si.

- Fiz muitas.

- Mas eu queria ver.

- Muito bem. Outro período composto: risc., risc., risc... - Como é bom fazer frases para quem gosta delas. Frases que estimulam o pensamento, o raciocínio, embasam opiniões próprias, que despertam ações e emoções.

- Clap, clap, clap. Bravo! Esse é um faz-frases realmente feliz com seu trabalho.

- Risc., risc., risc.... - Nem tanto, cavalheiro, nem tanto... Cada vez menos pessoas sentem-se atraídas pelas frases. A maioria prefere visões e audições de efeito superficial, instantâneo, que alienam mais que instruem.

- Por isso mesmo o senhor não deve desistir.

- Risc., risc., risc... - Desistir, não desisto. Tivesse aprendido fazer outra coisa..., quem sabe? Para sobreviver, este humilde fraseador sente-se obrigado paradoxalmente a vender frases numa sociedade cuja maioria não lhes dá valor. 

Transformou-se num mercenário vendedor de frases!

- Pelo menos tem trabalho...

- Risc., risc., risc... - Por enquanto, por enquanto. Meu trabalho é na seara da liberdade, e não sei se ela sobreviverá por muito tempo. Nuvens ameaçadoras se formam no horizonte...

- Credo. Que pessimismo!

- Risc., risc., risc... - Sem frases..., sem democracia, que sobrevive delas. E sem democracia..., vida infeliz, jornada inda mais árdua e dura. 

Reflita.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em março/2010

segunda-feira, 4 de março de 2013

O silêncio ensurdecedor de um povo apático

Réplica da Usina Hidrelétrica Franco Amaral,  que os iconoclastas eliminaram da paisagem bom-jesuense

Mais incompreensível que a decisão das desditosas autoridades de Bom Jesus do Itabapoana/RJ de destruírem um dos poucos ícones da história do seu povo - a réplica em miniatura da Usina Hidrelétrica Franco Amaral -, é a indiferença da população.

Tal desinteresse é variante das demais molas propulsoras que impelem os brasileiros à estratosfera da acomodação e ao valhacouto do conformismo em quase tudo o que lhes diz respeito enquanto coletividade. 

O insidioso mal que acomete boa parcela dos quase 200 milhões de habitantes desta nação vem do seu sistema político que privilegia o personalismo em detrimento das ideologias. 


Assim, em vez de votarem numa causa, legitimam um indivíduo, com todos os seus defeitos e idiossincrasias, sem contarem com instrumentos objetivos, funcionais, que pudessem dispor um contraponto às atitudes grosseiras, que pudessem relativizar a falta de visão abrangente, a cegueira da vaidade, neutralizar os descaminhos.





Acerta na loteria um povo que eventualmente elege como seus representantes pessoas sérias, esclarecidas, sensíveis, estudiosas, dadas ao diálogo e ao bom-senso. 



Não é o caso em questão, em que broncos e insensíveis, caricatos e frívolos não têm sequer a capacidade de reconhecerem o tanto de informação e de cultura deixaram escapar ao longo da vida das imediações de suas zonas cinzentas, que nesta altura mal conseguem manter funcionando dois ou três neurônios. 

A Franco Amaral era um oásis em Bom Jesus num tempo
 em que luz elétrica era artigo de luxo nos rincões brasileiros 

É o caso de uma dita autoridade (autoridade? Tal terminologia seria cômica se não fosse trágica), que prefiro não nomear porque a informação é de terceiros. 

Ela teria dito, sobre a réplica: 

- Gostam de velharias? Está lá ainda. Tirem fotos para olharem toda vez que sentirem saudades.

Inconcebível! Tamanho desprezo pela memória de uma geração não poderia vicejar impunemente. 


Mas cadê os instrumentos? Uma ferramenta que vez ou outra ainda trabalhava contra esses tiranetes, esses ditadores de meia-tijela está enferrujada, talvez irremediavelmente comprometida. 

Era a capacidade de mobilização da sociedade, o barulho dos jovens estudantes, das mulheres e homens de têmpera que até lograram destituir um presidente da República em época nem tão remota. 


Todos agora murchos como maracujá de gaveta!


Ex-governador do R. J., o bom-jesuense Roberto Silveira sobe as
escadas da réplica no final da década de 1950/início da de 1961
Os outros representantes do povo na Câmara de Vereadores parecem ainda mais conformados. Não dão um pio. Devem concordar que "velharia" é para ser derrubada mesmo. 

E isso estaria de conformidade com quem defende o tombamento de bens históricos. 


Derrubar não é mais ou menos sinônimo de tombar? Pois então. O patrimônio será tombado, nem foi preciso uma sessão legislativa.  

A réplica pode não ser um Taj Mahal, mas é um bem imóvel de grande significado cultural, artístico, documental e estético. 

Preservá-la seria demonstrar respeito e admiração pelas origens, pelas raízes, seria manifestar orgulho em ser bom-jesuense, seria registrar gratidão pelo progresso que a Franco Amaral trouxe para a cidade e pelos homens que conceberam a Usina. 


Preservá-la não seria apenas manter de pé o passado. 


Significaria sobretudo conservar a cidadania da gente do lugar, que tem o direito de ter sua memória, sua identidade. 

Destruir ícones culturais sempre torna um povo mais alheio ao seu passado. 


"Entre outros exercícios do espírito, o mais útil é a história", já dizia o historiador romano Gayo Salústio Crispo. 

Mas, segundo informações a cada dia mais aflitivas, nada demove a ideia de que eliminar as lembranças do passado pode irisar as realizações do presente, tanto mais por  megalomaníacas (megalonanicas, para usar um neologismo muito em voga no Brasil atualmente), afetadas e hipócritas que sejam. 


Na inversão de valores em que vivemos, agradar a visão vale mais, muito mais, que acalentar o coração e a alma. 

Profundamente lamentável! 


Bom Jesus não merece tamanho menosprezo e desrespeito! O que, é duro dizer, não só por culpa dos maus políticos.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em maio/2010

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Grande Irmão já encheu o saco!

caminhopoetico.blog.com
Está a cada ano mais difícil aturar o tal do BBB (Big Brother Brasil), que tal e qual as ervas daninhas tomou de assalto o terreno já infértil de nossa Cultura, boas maneiras e espontaneidade.

Em sinal de protesto, todos os que pensam assim deveriam contribuir de alguma forma pela redução dos níveis de audiência da Globo. 

Impossível encontrar algo que se possa concluir proveitoso no confinamento de deslumbradas e deslumbrados que, num passe de mágica, pulam da insignificância para o estrelato.

Triste país este, em que pessoas que nada fizeram de útil, de proveitoso para a sua espécie são premiadas com uma montanha de dinheiro ou, na pior hipótese, com a facilidade de ganhá-lo fácil com a brusca notoriedade. 



A ignorância, o vazio de idéias, a incapacidade produtiva, a falta de cultura - às vezes de estudo, passaram a ser características altamente meritórias, e quem as portam merecedores de carrões zero km, de milhões de Reais, do glamour e da fama proporcionados pelas lentes de uma emissora que adentra os lares brasileiros do Oiapoque ao Chuí, dos Pampas aos Seringais.

Um jogador de futebol que pronuncia "a gente vamos ganhar", mas que por outro lado nos oferece sua arte, seu esforço físico e o prazer eventual de um gol ou de uma vitória, ainda vá que ganhe pequenas fortunas, mesmo no Brasil. 

Mas convenhamos que pagar pelo vulgar e pelo ordinário é uma completa inversão de valores e dá bem a tônica da loucura, da insanidade a que chegou o comportamento contemporâneo.

Deste lado do equador é incomum a valorização da Inteligência, da História, da Ciência, da Cultura. 


A liturgia do egocentrismo e da vaidade, lustrada por corpos esculturais é que está em voga. 

Quer dizer: mais vale hoje em dia possuir uma bunda proeminente ou um músculo rijo, do que massa cinzenta na cabeça. 

É lamentável, absolutamente constrangedor ver o jornalista Pedro Bial, destacado profissional de sua geração, homem culto e sensível, tirar Deus sabe lá de onde uma maneira de fingir que se diverte com o espúrio, com o ridículo, com a vulgaridade. 

Seu contrato de trabalho deve ter cláusulas draconianas!

Rotulem-me do que quiserem o amável leitor, a graciosa leitora que discordem. 


Insisto em que nada aproveitamos por contemplar a convivência de pessoas cujo único objetivo é ganhar dinheiro e fama, tendo até mesmo algumas delas, por vezes, de se comportar ao largo da ética e da moral, simulando caráter e dissimulando fraquezas, esforçando-se em nos iludir que ali estão na maior naturalidade e espontaneidade. 

Não deveríamos pactuar para que a malandragem, a preguiça, a lei do menor esforço, a indolência, a falsidade, o egocentrismo, a insensibilidade, o mórbido, o reles e outros comportamentos assemelhados se apresentem com tanta ênfase para estimular ainda mais a ignorância e a futilidade! 

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em janeiro/2008


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Por piedade, socorram-nos

Domingo, 18/2. Na pasmaceira programação da TV aberta estou sintonizado na Rede Globo, a única que nos fornece a maciça dose de alienação com a costumeira qualidade global, já que as demais nem sequer se dão a esse cuidado. 

Assisto ao programa do Tom Cavalcanti, que desperdiça seu talento obrigando-se, por força da audiência, a contribuir para a derrocada da cultura brasileira já em adiantado estado de decomposição.

Qual um monótono instrumento monocórdio, os personagens que fazem a cabeça dos jovens brasileiros, nossos dirigentes no futuro, são sempre os mesmos pagodeiros, rapeiros, funkeiros, pseudos sertanejos e outras pragas que dizimam tal e qual nuvens de gafanhotos uma vasta área da inteligência musical cultivada por gênios que fazem da criatividade, do bom-gosto e do esplendor melodioso o autêntico cancioneiro brasileiro, que vive em completo ostracismo entre nós, mas coleciona Grammy's e mais Grammy's no exterior. 

Por aqui vamos mesmo de Meninas e Meninos, tiriricas, tchans, catinguelês, negritudes e outras drogas que tais. 




Incrível a falta de discernimento e senso de ridículo que permeiam esses arremedos de artistas, que julgam (e são incentivados pelos meios de comunicação) ser os irritantes e indolentes passinhos rítmicos (tipo dois pra lá, dois pra cá, harmonizando normalmente com pífios refrões, absolutamente pobres em criatividade) a mais revolucionária expressão artística. 

Os dois ou três neurônios que compõem a caixa craniana da maioria dos nossos "artistas" campeões da mídia, trazem para nós, no entanto, algo de bom: o impulso para sonoras gargalhadas pelas coreografias ridículas, pelos esgares desconjuntados, pela sem-gracice da indumentária, pela pobreza vocabular, sobretudo pelo vazio mental. 

Senhor, tendes piedade e livrais meus leitores de me julgarem um rabugento conservador!


No domingo em epígrafe, um grupo de rapazes imberbes  recebia do apresentador reverências dignas a um Caetano Veloso, parlapatices entusiasmadas pela "grandiosa obra" do grupo construída em seis meses, que se resume na regravação de uma música estrangeira de extraordinário sucesso no passado e uma ou outra de somenos. 

E lá posavam de artistas os briosos rapazes, arrancando gritinhos adolescentes histéricos a cada bobagem que grunhiam, quando o programa é bruscamente interrompido por aquela vinheta de mau agouro característica da informação extraordinária para comunicar-nos as mais espetaculares rebeliões ocorridas simultaneamente em São Paulo, com os bandidos fazendo mais de 7.000 reféns.


Imediatamente liguei uma coisa a outra.  


Por ironia, a emissora que noticiava o pavoroso incidente é de certa forma uma das responsáveis por essa onda de violência que nos assola, porque ao conspirar para a falta de consciência da população aos problemas políticos e sociais, ao mesmo tempo em que faz apologias do culto ao corpo, ao egoísmo e à vaidade exacerbada, obsessiva, destruindo quaisquer resquícios de valores morais e espirituais, ela anestesia os princípios de solidariedade, bloqueia a capacidade de indignação pelas injustiças, inibe a impulsividade das reações frente aos desmandos, segregando os poucos que se destacam num pequeno mundo de veleidades onde a quimera e a futilidade os fazem criminosamente alheios aos milhares de brasileiros desesperançados, injustiçados. 

Uma parcela daqueles só encontra solução para seus problemas na província mais obscura da personalidade, obtendo na senda do crime o que lhes é negado. 


Consciente ou inconscientemente, muitos dos que desafiam a lei agem segundo uma lógica desconcertante: se políticos roubam e nada lhes acontece, por que também não podem fazê-lo? 

Qual a diferença entre a droga que traficam e essa que nos empurram goela abaixo nos programas nobres da televisão, travestida de cultura de massa? 

Aquela é até menos danosa, porquanto seu malefício é individual, quando muito restrito a uma parcela específica da sociedade. 


Esta, ao contrário, se revela imensamente mais perversa porque injeta o potente veneno do emburrecimento e alienação coletivos, numa clara evidência de conluio com o establishment político que, obviamente, teria como a mais renitente e implacável adversária uma sociedade esclarecida, politizada e liberta da frivolidade que a faz prostrar-se na letargia e na total incapacidade de decidir com responsabilidade o seu próprio destino.

Pois é isso. Vai-se aprendendo a dançar com o Tigrão, aparando a inteligência pela rabiola, enquanto detentos nos presídios de segurança máxima (?) fazem túneis refrigerados, pintados com Suvinil e revestidos com cerâmica de primeira, ensinando que a verdadeira criatividade só pode nascer do desafio e das dificuldades.


É um erro terrível privilegiar o medíocre à custa do degredo do talento.


Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em abril/2001


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Matar não é crime

www.amarildo.com.br
Como devem ter percebido o amável leitor e a graciosa leitora, esforço-me para lhes dedicar textos contendo a menor quantidade de erro gramatical possível. 

Dicionários e enciclopédias, eletrônicos ou no bom e velho papel tenho vários, e os uso mais do que supõe a vã filosofia dos que me dão a honra da leitura. Mas temo que no futuro eles não sejam mais necessários, lamentavelmente.


Este intróito é a propósito de um livro didático (Por uma vida melhor) que o MEC quis empurrar goela abaixo da brasileirada estudantil, o qual assevera que falar errado é certo. 


Aberrações como "nós pega os peixe", ou "os livro ilustrado mais interessante estão emprestado", diz o Ministério da (des)Educação, ao acatar o livro, que é uma variante oral válida, que a pessoa que fala pode decidir usar tanto a norma culta quanto a linguagem errônea.

E eu tolamente a pensar que já tínhamos atingido o fundo do poço! 

Então um Ministério que devia ensinar a escrever e a falar corretamente, ensina a falar errado? Daí a ensinar a escrever também errado será um pulo, permito-me raciocinar, dados os despautérios de uma Educação que está entre as piores do mundo (88º lugar em 127, no ranking 2011 da Unesco), perdendo para "potentados" como Paraguai, Bolívia, Namíbia, Quirquistão, Moldávia, Equador, entre outros.  


Para que serve a escola? Para ensinar o certo, penso eu, porque o errado as pessoas aprendem sozinhas, sendo portanto desnecessários educandários, MEC, professores, ministros da Educação, cadernos, gizes e lousas, num futuro talvez nem tão distante se a institucionalização da burrice não for cortada na raiz. 

Ao que parece, o Brasil está na verdade jogando a toalha, admitindo que a causa da Educação está perdida. 


Parece que os burocratas do MEC estão reconhecendo sua patética incompetência para ensinar, e o pretexto usado para dizerem “ok, não podemos ensinar, tchau, passar bem” é combater uma pseudo discriminação linguística para decretar o errado como certo. 

Depois poderá advir o cerco às "discriminações aritméticas", onde 2 + 2 podem ser 5, 6, ou quanto a pessoa queira. 


O problema vai ser combinar com as pontes e os edifícios a aceitação dos cálculos de uma coluna de sustentação, por exemplo, mas isso o MEC poderá também decidir por decreto, ora bolas!

Prevejo dias em que regrediremos tanto que a frase que titula este texto não deverá ter obrigatoriamente uma vírgula após a palavra "não", e matar realmente não será crime em nome do embate contra..., ´pur caus diquê não´?, a "discriminação e o preconceito ao livre arbítrio"!


Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em junho/2011 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Você conhece eubiótica?

Não conhece? Despreocupe-se. Não significa que você seja um apedeuta por desconhecer. Nosso idioma é muito rico e há grande variedade regional, o que complica.

Você sabe o que é um caga-sebo? E um caga-fogo? Veja só: Palavras tão grosseiras para designarem um inocente negociante de livros usados e um prosaico beija-flor, respectivamente. 


Atucanar, no entanto, soa bonitinha, mas significa apoquentar, aborrecer.

- Meu filho, pegue seu pintão, leve a piranheira e bote-as na abertona. Calma, não endoidei. Isto quer dizer: - Meu filho, pegue sua fruta de vez (pintão), leve a planta euforbiácea (piranheira) e bote-as na abertura do porão do navio (abertona). (Desculpe, leitor mais sensível. Sei que essa é uma situação inverossímil, mas preciso ganhar a vida. 


Além do mais, até há pouco tempo não havia gente que defendia o Salário-Mínimo a R$ 700, repudiava o FMI e defendia a dignidade dos velhos aposentados? Pense bem. Não sou só eu o obsceno!)

A complexidade do idioma torna possível esta frase, por exemplo: - O marido dela despicou e praticou uxoricídio. Tradução: O marido dela vingou-se (despicou) e matou a própria mulher (uxoricídio). Ou esta:  - O rapaz abichou e agora é rabunador -. 



Não tire conclusões apressadas! Certamente o rapaz conseguiu coisa vantajosa (abichar) e prepara cortiça para fazer rolha (rabunador). (Esta é mais verossímil ou o cara não pode comprar uma fábrica de rolhas, leitor molévolo?).


Também pode ocorrer de alguém propor a outrem (outra ou outras pessoas): - vamos abocetar? Que quer dizer, - vamos guardar em boceta? Huumm..., ainda não entendeu? Então..., que tal assim? - Vamos guardar na caixa de rapé? Ufa..., tá bom, tá bom, rapé é tabaco em pó.

Olhe que feinhas! Viador (viajante); vasca (ânsia); punceta (objeto para cortar lâminas de ferro); bucéfalo (cavalo ordinário); cabaça, fruto da cabaceira; escalda-rabo (repreender); bundo (idioma dos negros de Angola); xeta (beijo atirado com os dedos); putativo (que julga ser o que não é); cualvo (rabo-branco, tradução literal, he, he, he); vulvária (uma erva)... e por aí afora.

Senhoraço, palavra viril que lembra homem poderoso? Não. Significa homem de inferior condição, da mesma forma que poetaço traduz o poeta que faz maus versos. Embaixatriz todos sabem, mas e senatriz? Sim, esposa de senador... Só não achei deputatriz, vereatriz..., gentalha!


Engraçado é a pessoa que tem hipantropia (delírio pelo qual o enfermo se julga um cavalo). Se sua filha é temípede, tudo bem, tem pés pequenos. Se você perde no jogo ganha-perde, é um sortudo! Esse é o jogo que ganha quem perde. 


Você tem verecúndia porque sua mulher é portadora de pogoníase? Não precisa. Quero dizer, há tratamento para barba na mulher (pogoníase), não carece a vergonha (verecúndia). 


E aquele político no meio da multidão? Uma mulher irada se aproximou dele e disse bem alto:  - Fulano de tal, vote! Todos torceram o nariz, vote designa repulsa, repugnância.

Pior deve ser o cara chegar em casa com o filho pequeno e este ir logo entregando: - Mãiêê, eu vi o pai tirar os óculos para dar um ósculo naquela mulher! Ósculo = Beijo. 

Curiosas são aquelas "faisquinhas" que saem do esmeril. Chamam-se triboluminescências. Obóveo é tudo que é em forma de ovo invertido. (Só não me perguntem o que é ovo invertido que eu não sei. Teria a gema para fora e a casca para dentro?).


Se num hospital você vir a equipe médica numa trepanação estará apreciando apenas os médicos furando o osso (trepanar) de algum paciente. Você já foi vítima do mão-leve (gatuno)? Saiba que há também o pé-leve (sujeito reles). Há o fute (demônio); rizófilo (que gosta de raízes); o que tem efélides (sardas); a tríbade (mulher homossexual); o abezelgado (desenvolto), e o que gosta de tirar uma sorna (soneca). 


Eu sou Flamengo e fico sempre vascoso (enjoado) quando o Vasco ganha da gente. Me dá vasca de raiva! A palavra inconstitucionalissimamente, com 27 caracteres, para mim era a maior. Qual nada! Encontrei uma com 28! Um médico de ouvidos, nariz e garganta e que também seja oftalmo, sua especialização é oftalmotorrinolaringologista. Já pensou se ele possuísse mais alguma especialização?


Não-te-esqueças-de-mim é o nome de uma pequena flor; quadrúmano é o mesmo que quadrúpede (como certos políticos...); quichiligangue é uma bagatela, que por sua vez é uma quantia de pouco valor. Polca é uma espécie de dança polonesa, e porca tanto pode ser a mulher do porco ou a do parafuso. 


Você nunca deve coser (costurar) sua comida nem cozer (cozinhar) sua camisa para não parecer um sandeu (idiota). Tenha pena de um bostelento (que tem feridas), mas saiba apreciar uma mulher calipígio (que possui belas nádegas). Evite sínico (chinês) cínico, principalmente se estiver com um bacorinha (chapéu de feltro); pode ser um madraço (malandro).


Veja se não confunda a eufonia (som) das palavras, como aconteceu com um garçom que servia um peixe para uma distinta senhora. Quando ela apontou o prato e perguntou: - Pirarucú?, ele respondeu: - Tiraro, sim sinhora!


Ah, antes que eu esqueça: Minha mãe deve estar com os ouvidos esbuxados (deslocados) e os dedos adelgaçados (afinados) de tanto enfiá-los quase até aos tímpanos com medo de trovões e relâmpagos (astrofobia).


E para terminar, relaxe. Você certamente conhece eubiótica (arte de viver bem) e se me suportou até aqui não é um apedeuta (analfabeto). 


Espero ter sido um adminículo (que contribui para ajudar) à sua cultura.

Fonte de Pesquisa: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa - O Globo.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em fevereiro/1999