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Mostrando postagens com marcador Bonjesino. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Mobilidade urbana em Bom Jesus: Bonjesino acha que os políticos da terrinha estão se mexendo, como seus congêneres de Brasília. Tola ilusão, acho eu

Lamento dizer, mas não acredito que as manifestações meio barro, meio tijolo, em Bom Jesus, foram
capazes de sacudir as estruturas do provincianismo político, suas decenárias idiossincrasias
e o modus faciendi ultrapassado, canhestro, de gestão pública

A ponte sobre o Rio Itabapoana (foto), que os ingleses construíram no início do século passado mais para tráfego de carroças de tração animal, unindo Bom Jesus do Norte (Extremo-Sul Capixaba) e Bom Jesus do Itabapoana (Noroeste Fluminense), hoje suporta o pesado trânsito de bólidos guiados por GPSs e que manobram sozinhos nas vagas de estacionamento.

Diria alguém não conhecedor das duas cidades, que naturalmente a ponte veio tendo ampliações ao longo do tempo, adequando-se gradativamente à medida das necessidades pelo aumento constante do tráfego.

Ledo engano. Ao contrário, ela ficou mais estreita para os veículos devido à construção de duas passagens para pedestres na década de 1970, se não me falha a memória! 

Adivinhem como está o trânsito sobre a acanhadíssima ponte,  atualmente, em especial nos horários do rush...

Hoje em dia todo mundo tem acesso ao carrão financiado em trocentas vezes, com preços reduzidos por renúncias fiscais do socialismo tupiniquim. 

Só que os çábios, com c e com cedilha, não atentaram para o simples fato de que teriam também de investirem em estrutura viária onde esses veículos pudessem trafegar.

Resultado: todo mundo tem carro, mas não tem como usá-lo de forma desejável, principalmente nas cidades, sem estresse, sem engarrafamentos monstruosos.

Como dizia Ulisses Guimarães, político só tem medo de povo.  De povo que reivindica, que faz pressão, bem dito. 

E depois destas últimas pressões – e que pressões!, a politicada está igual manada sem rumo, galopando em círculos, entrando em qualquer porteira que vê aberta.

Estão prometendo ao povão até revogar a lei da gravidade;  inclusive, já anunciaram a liberação de R$ 50 bilhões para mobilidade urbana.

Diria Bonjesino, o meu personagem apaixonado pelos políticos da terrinha, que os prefeitos daqui já estão unidos entre si, e articulam com suas respectivas representatividades em níveis estadual e federal para viabilizarem a construção da 2ª ponte urbana.

Guardando uma estratégica e cautelar distância de Bonjesino, em verdade vos digo:

Em 2016, ano das próximas eleições municipais, com certeza ouviremos nos palanques as mesmas promessas, os mesmos tatibitates com os quais há décadas tratam de assunto tão importante para ambos os municípios e seus quase 50 mil habitantes, somados, fora as populações de municípios adjacentes e de outras plagas, em trânsito, numa região fronteiriça entre dois dos mais destacados Estados da Federação.   

Autor: José Henrique Vaillant

domingo, 2 de junho de 2013

Interpretando a charge 10 - Aumentou o número de vereadores. Celebrem, cantem, vibrem porque, agora, vai!


O aumento do número de vereadores estabelecido pela Emenda Constitucional 58/2009 elevou para 56.810 a quantidade delas em todo o país, a partir deste ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2013. Até 2012, os vereadores brasileiros totalizavam 51.740, um acréscimo de cerca de 10%.

Naturalmente que a situação dos municípios brasileiros vai melhorar, e muuuuuuiiiiiiiiitooo.

Em sua cidade, amável leitor, graciosa leitora, vocês já devem ter percebido melhorias, não é mesmo? 

Agora vai!, digam em uníssono. 

Tal como aquele grito de guerra "a ha, u hu, o Maraca é nosso!" (nem rimou...), devíamos nos encher de brios cívicos por tão benevolente gesto em benefício de nosso bem-estar e progresso, reunirmo-nos em multidões berrando pelas ruas: A HA, U HU, VÃO TOMÁ NO... CONTA DE NÓS (cuidado para não se empolgar e deixar rimar - ops, até rimou o adendo; não pode, manda a novilingua criativa). 

Se vocês já conhecem o meu velho amigo Bonjesino (se não conhecem, tratem de conhecer aqui neste blog, ele tem até uma tag específica), imaginem o olhar de candura naquele carão e o parecer eivado de otimismo: - Chefia, se antes nossas cidades pareciam um paraíso, agora não parecem mais: são!

Maldade do chargista Bruno desenhar suas excelências em cima dos contribuintes. Maldade maior julgar que escolher nomes de ruas, emitir votos de louvor, dar condecorações, títulos, diplomas não seja trabalho duro, árduo. 

Se o Bruno fizer uma charge retratando pejorativamente a reunião de nossos nobres representantes uma ou, no máximo, duas vezes por semana, durante duas horas cada sessão, com direito a dois meses de férias anuais, juro que boicoto artista tão arcaico e infenso à modernidade das relações de trabalho!

Autor: José Henrique Vaillant
www.recantodasletras.com.br/autores/josevaillant

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Bonjesino "filmou" a terceira ponte em Bom Jesus. Coisa realmente de cinema!

Cena captada dos olhos de Bonjesino
Bonjesino é uma figuraça, inclusive no sentido real do termo, isto é, grande também no físico. 

A começar pelo nome, pode-se notar seu profundo amor por Bom Jesus, tanto por uma cidade quanto por outra, que seu enorme coração não delimita. 

Ingênuo, otimista extremado, jamais ele duvida das boas intenções dos políticos da terrinha, e até briga quando alguém ousa questionar essa ou aquela atitude, esse ou aquele procedimento, tais e quais disposições de espírito. 

Não posso afirmar categoricamente, mas a Passarela da Amizade, que une as duas Bom Jesus teve o dedo de Bonjesino. 

Antes de inaugurarem a dita-cuja no ano da graça de Nosso Senhor de 2000, virada do milênio, ele vinha enchendo a paciência do então prefeito de Bom Jesus/RJ, Carlos Garcia, e da de Bom Jesus/ES, Daisy Batista, desde que assumiram a chefia executiva de seus respectivos municípios, em 1997. 

Quero dizer, enchendo a paciência no bom sentido. 

Carlos Garcia e Daisy Batista podem ter enjoado daquela conversinha malemolente de Bonjesino, carregada de otimismo e de fé nos seus dirigentes. Entre as muitas encheções de saco, uma vez saiu-se com esta:

- Sabe chefia, já estou todo arrepiado só de pensar na entrada triunfal de nossos dirigentes, cada qual do seu lado, encontrando-se no meio da passarela para aquele abraço fraterno em meio a fanfarra e fogos de artifício no dia da inauguração. 

Sei que isso vai ocorrer muito em breve porque conheço várias cidades, com necessidade semelhante, onde seus prefeitos disponibilizaram numa comovente união as obras que nem são tão caras, já que cimento e ferragem são materiais muito em conta - (fev/1999).

Olhem que Bonjesino me disse isso quando sequer a pedra fundamental da Passarela havia sido lançada. 

E não é que ele agora está com novidades mais arrojadas, com expectativas mais ambiciosas? 

Há muito tempo não o via, mas hoje matamos a saudade. 

- E aí, chefia, quanto tempo, né?

- Você sumiu, Bonjesino. Por onde tem andado?

- Fiquei na moita, chefia. Um longo tempo desfrutando tudo de bom que as nossas cidades de Bom Jesus têm proporcionado para nós.

- Tudo de bom?

- Não vejo nada errado. Esse povo é que gosta de reclamar.

- Tem razão, Bonjesino, isto aqui mais parece o Jardim do Éden.

- Não gostei da frase irônica, chefia.

- Desculpe. Jardim do Éden..., exagerei. Nem temos jardins...

- Você não tem mesmo jeito, chefia. Fica aí teclando, teclando, e só sai crítica.

- Fazer o quê, se moro em lugar diferente do seu...

- Você é um caso perdido. Vai dizer até que não sabe que nossos prefeitos estão deveras preocupados com o trânsito  em nossas cidades?

- Não diga, Bonjesino. É mesmo?

- Garanto.

- Mas rapaz, isso é uma ótima notícia. Enfim deram-se conta de que mais um pouco e o trânsito dá um nó completo, principalmente quando fecham ruas para alguma coisa, quando a ponte velha fica parecendo uma sorumbática miniatura da Rio-Niterói em véspera de feriado prolongado?

- Mais, chefia. Vão construir uma terceira ponte.

- Jura?

- Ligando o Bairro São João, no ES, ao Pimentel Marques, no RJ, completou.

- Que notícia auspiciosa, Bonjesino. Já não era sem tempo. Vai ser mel na sopa. Sérios problemas viários solucionados a um só tempo!

- Lembra da Passarela? Eu não disse que nossas autoridades eram competentes, sensíveis e convergentes àquela necessidade recíproca? Batata!


- É... Antes tarde do que nunca...

- Agora é a ponte, chefia. Olhe pros meus braços.

- Arrepiados de novo, Bonjesino?

- Emoção pura. Igualzinho da outra vez. Veja aqui a cena, chefia.

- Aqui, onde?

- Nos meus olhos.

Que cena deslumbrante, deixem-me descrevê-la!

Havia muita gente, de ambos os lados. Fogos pipocavam. 

Com aquele porte solene característico, o prefeito de Bom Jesus/ES Dr. Adson encaminha-se com sua comitiva em direção ao lado fluminense. 

Em sentido oposto vem a prefeita Branca Motta, também acompanhada de sua entourage. 

Fortes abraços e apertos de inúmeras mãos inspiram-se no brilhante resultado do esforço hercúleo das duas prefeituras em resolverem os problemas iguais. 

Depois a câmera volta-se para outras cenas. 

Ruas de ambas as cidades sem buracos, pavimentadas, sinalizadas, ajardinadas. Coisa de primeiro mundo!

- E aí, chefia?, acordou-me o ciclope.

- Gostei, rapaz. Muito legal. Quando será?

- Breve. Muito em breve. Até os vereadores das duas cidades se engajaram nesse projeto. Estão dando a maior força. Pensa que eles ficam lá nas suas câmaras só dando votos de pesar, condecorações e escolhendo nomes de ruas? Na, na, ni, na, não. Trabalham pra valer, chefia!

- Sei... Chegaram ao ponto de se unirem para soluções de problemas comuns?

-Pode crer, chefia. E vai logo preparando um texto para publicar depois da inauguração. Vê se elogia pelo menos uma vezinha...

- No inferno ou no purgatório tem computador, Bonjesino?

- Fez bem em esquecer do céu, chefia. Você não tem mesmo vez na Casa do Senhor. Passar bem.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em junho/2010

domingo, 28 de abril de 2013

Bonjesino e a terceira ponte

–Chefiaaaaaa........

Oh, não! Bonjesino na área!

–Espera aí, homem de Deus, preciso lhe falar..., – gritou ao longe, esbaforido, o ciclope, velho conhecido do amável leitor e da graciosa leitora, até pelo tamanho físico descomunal, que admiram-no pelo não menos descomunal tamanho da sua ingenuidade e boa-fé.

Adiei o ato de me aboletar na moto, preparando-me fisicamente para o abraço de paquiderme e, psicologicamente, para ouvir a saraivada de enaltecimentos aos políticos de Bom Jesus, seres aos quais Bonjesino, na sua imensa candura, afiança irrestritamente.

–Há quanto tempo, chefia –, foi se aproximando com os braços estendidos para o imperecível abraço (ou melhor, tentativa de assassinato por constrição). 

– Reconheci de longe a pouca bunda, completou.

–Ahnn??

–Estava saindo do mercado pensando justamente em você, chefia, quando... olha a coincidência... vejo a tábua em forma de gente...

–Tábua?

–É com o que você se parece, olhando assim de costas...

–Para de sacanagem, Bonjesino. E já que repara minha carência glútea, fique sabendo que a sua é feia de doer, por motivos opostos. Parece vestir antena parabólica em vez de cuecas. Eu não carrego tanto peso..., provoquei.

–E o nosso Mengão, chefia?

–Nada a declarar.

–Calma, calma, vamos ganhar o Brasileirão...

–Da série B de 2013..., é provável! E parta logo para a política, que é o que o traz até mim, se bem o conheço de velhos carnavais.

–Soube da terceira ponte?

–Ahhh. Ouviu o discurso do governador fluminense Sérgio Cabral, não foi?

–Sério. Vai sair. Viu com que sinceridade o homem falou quando esteve a última vez por aqui?

–Vi. Mas acho que referia-se a alguma ponte sobre o Rio Sena, talvez uma semelhante à Alexandre III, de Paris...


–O que você está falando, homem de pouca fé?

–Acho que ele quer ser prefeito da Cidade-Luz; vê como viaja frequentemente para a França, e sempre muito bem acompanhado com alguns dos maiores PIB´s brasileiros?

–???

–Não dá para entender mesmo, Bonjesino. É surreal.

–Não sei do que você está falando, chefia. Mas o conheço. Lembra que também não acreditava na passarela?

Lembrei. Em várias conversas com Bonjesino, pelos idos de 1996/1999, ele batia sempre na mesma tecla da passarela, necessidade secular há apenas 12 anos materializada. 

Em seus devaneios, o homenzarrão chegou a descrever antecipadamente a entrada triunfal da então prefeita de Bom Jesus do Norte, Daisy Batista, ao encontro do então prefeito de Bom Jesus do Itabapoana, Carlos Garcia, que se confraternizariam (como realmente confraternizaram-se) no meio da passarela, em meio a fogos e fanfarras.

– Passarela é uma coisa; ponte...

– Anote aí, seu escrevedorzinho malévolo, interrompeu-me bruscamente. 

– Nossas autoridades de ambos os lados só pensam nisso, trabalham incessantemente, u-ni-dos (escandiu as sílabas para realçar a forte, fortíssima união e entendimento mútuo. Essa é boa realmente!), para viabilizarem a dita-cuja.

–Não me diga! Quer dizer que até as autoridades não se conformam com o caos em que já está se transformando nossa valente ponte inglesa velha de guerra, feita mais para tráfego de eventuais tílburis e caleças que propriamente para massiva quantidade de bólidos equipados com GPS´s, financiados em trocentos meses, disponíveis a todos que, na pior hipótese, sacrificam o bife de paleta domingueiro para pagar as prestações?

–Claro.

–Realmente, Bonjesino. Depois de um trabalho intenso, quase asfixiante, pelo qual lograram deixar nossa saúde pública tão boa quanto a da Islândia; nossa educação qualitativamente igual à dos finlandeses; nossas ruas e avenidas capazes de fazer corar os príncipes de Mônaco, só falta realmente desafogarem o trânsito...

– Lá vem ironia!

Levantei a mão espalmada, não permitindo que me interrompesse novamente. E continuei, com a mais intensa ironia: 

– Aliás, nossas ruas e avenidas, especialmente as de Bom Jesus do Norte, estão lindíssimas, bem conservadas, isentas de buracos e fissuras, dotadas de estonteantes projetos paisagísticos... Esse delicioso aspecto visual e operacional, inesquecível para os visitantes, bem merece completar-se com uma ponte novinha em folha, com acabamento em mármore de Carrara...

–BASTA!, trovejou o gigante. –Sabe qual será o seu castigo, chefia? Noticiar a inauguração.

–Pra rimar: nesta ou noutra encarnação?, falei e zarpei num átimo, sem esperar a gota d´água transbordar o poço de indignação do gigântico amigo. 

Tenho horror a escândalos!

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em maio/2012

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Bonjesino, a praça e a..., dengue! Ou, "...Muitas vezes procuramos o que já temos. Nessa procura, trocamos ouro por cobre, diamantes por vidro e pedras preciosas por seixos..."

chargistaamancio.blogspot.com

aí, chefia? Viu que beleza de praça?

-Anhnn?, firmei os olhos para reconhecer o brutamontes que vinha a passos largos, gritando ao longe.

-Bonjesino? 


Sim. Era o ciclope! Quase dois metros de altura, ingênuo, boa-praça, apaixonado pelas Bom Jesus e mais ainda pelos políticos do lugar; reage bravamente quando alguém os critica. 

-Você não vai acreditar, disse ele antes mesmo do abraço de paquiderme que quase me tritura os ossos. 

-Maravilha, chefia! Acabei de ver. Tem chafariz, parquinho que encantaria até as crianças da família real inglesa..., revestimento cerâmico que as celebridades do Oscar pisariam com prazer, jardins magníficos..., e patati, patatá...

-Espere aí, bonjesino, interrompi-o no momento em que sua euforia atingia os píncaros.


-Você está falando...

-Isso. Da Praça Governador Portela (Bom Jesus/RJ), afirmou excitado, sem me deixar completar a pergunta.

-Calma, bonjesino. Relaxe. A praça é bonita, realmente. Também, custou R$ 2 milhões do seu, do meu, do nosso suado dinheirinho...

-Do meu não, chefia. Nem do seu. É todo do Governo do Estado. Eu não dei um centavo. Aliás, se me pedissem, até que separava um dia do meu trabalho...



-Do seu dinheiro, sim, amigo. Você não come feijão, arroz? Não compra remédios? Não paga conta de luz e água? Não toma umas e outras de vez em quando?


-E daí?

-Imposto, criatura. Você paga imposto.

-Não pago nadica de nada. Lá vem você inventando coisas só pra não fugir àquela sua velha mania de criticar...

-Ah, é? Saiba que o imposto médio dos alimentos é de 17%. 

Isso quer dizer que quando você vai ao supermercado e compra R$ 100, deixa R$ 17 limpinhos, limpinhos, de imposto, que é o dinheiro que, entre outras coisas, estão usando para fazer a praça.

-Não diga!

-Digo. E mais: na firma em que você trabalha, de cada R$ 1 mil de faturamento, R$ 340 vão para o governo, já que a carga tributária média das empresas é de 34%.

-????!!! Agora sei porque o patrão reclama tanto. Mesmo assim, chefia. Dá gosto pagar para ver aquela maravilha!

-E no mais, amigo? Fora a praça, o que há de bom por aí?


Precedendo a resposta, um daqueles olhares penetrantes, mistura explosiva de indignação e censura.

-Sei onde quer chegar. Estou acostumado. Não comece, viu?

-Só fiz uma pergunta...

-Daquelas maliciosas. Como se nada mais de bom existisse.

-Por exemplo: o quê?

-Tem a..., Sabe..., Aquela... Vai dizer que também não viu o... O problema da..., Foi resolvido... Os moradores até..., Ninguém pode dizer... Aquilo ficou ótimo... A rua está..., O caso do..., Beleza, tudo de bom..., Lembra do..., Solucionado, sim, solucionado..., Os servidores..., Ufa..., Tanta coisa...

-É. Estou vendo. Muita coisa. Nada ruim?

-Só a Dengue.

-Ruim até demais, complementei.

-Mas não é culpa das autoridades...

-Não?

-Culpa nossa. Veja que enquanto elas estão dando o maior duro, trabalhando desesperadamente pelo nosso bem-estar, o que a gente faz, hein, hein?, perguntou com trejeitos furiosos, a candura momentaneamente posta para escanteio. 

E completou, esbravejante:

-Deixando lixo espalhado, copinhos de iogurte, tampinhas de cerveja, pneus, vasos de planta cheios de água sem trocar por 200 anos, caixas d´água descobertas, matagais abandonados em forma de terrenos...

Difícil seria convencer Bonjesino de que a culpa é, sim, majoritariamente das autoridades, que têm a prerrogativa de legislar, regulamentar, fiscalizar e punir; 

Que possuem os mecanismos, os meios para conscientizar, alertar, insuflar os instintos de autopreservação.

-Até parece que você é uma autoridade, Bonjesino, pois algumas delas dizem a mesma coisa...

-E estão certas. A culpa é do povo....

-...Que as elege..., atalhei-o timidamente, afastando-me um pouco do gigante, puro reflexo condicionado de autodefesa, desnecessário porque Bonjesino é incapaz de estapear um..., Aedes!


O semblante do colosso enfarruscou-se. Passados alguns segundos de tensão, porém, transformou-se numa máscara encorpada de ironia quando seus três neurônios ordenaram a afirmativa que considerava fatídica, lapidar, que poria uma pá de cal no meu estoque de argumentos:

-A, há..., cerrou o punho balançando-o loucamente para a frente e para trás. 
- Toma essa, chefia, preparou-me para a estocada mortal. 

- Eu vi na TV que a Dengue está barbarizando em todo o Brasil. Não é só em Bom Jesus, não, viu seu escrevedorzinho maledicente?

-Tem razão, Bonjesino. Essa praga infelicita todo mundo.

Olhe só: o Estado do Paraná teve 1.383 casos confirmados até o dia 14/2 na totalidade dos seus 399 municípios. 

Bom Jesus teve 266. 

Ou seja, cada município paranaense confirmou, em média, 3,5 casos. Nós confirmamos 266, repeti, acentuando o tom na pronúncia dos números.

-É mesmo, chefia? Três casos e meio contra duzentos e sessenta e seis?

-Bidu!

-Mas...

-Nem mas nem meio mas. O problema é o gosto de viver de aparências. Nessa ensandecida escala de valores, mais vale uma praça que a saúde da população, que fica pelos corredores e pelas filas esmolando um atendimento o mais simples. 

E continuei, sem dar chances a apartes:

-Quando a doença complica, e a dama da foice se aproxima para tomar os apontamentos exigidos por São Pedro a fim de dar a destinação de cada um, dá-se a debandada para Itaperuna, Campos, qualquer outro município que dificulte um pouquinho mais o hálito quente da morte bafejar no cangote desprotegido, indefeso, vulnerável...

-Pare, homem de Deus. Está vertendo bílis pela boca, cruz em credo! O dinheiro da praça estava lá dando sopa, tipo me leve por favor. Mas só podia ser usado na praça, era verba específica. Você acha que nossas abnegadas autoridades iam deixar escapar a oportunidade?

-Melhor teria sido, Bonjesino. É vergonhoso, ridículo, inominável que uma população padeça de tantas carências, nos mais variados aspectos, e queiram operar o milagre de acabar com elas retinindo-as com penduricalhos efêmeros e vãos como a sombra que passa.

-Vou-me embora, chefia. Chega de tentar convencer um ingrato de que nossos políticos são o que há de mais altaneiro. Você não merecia de Deus o dom de escrever. Até Ele, até Ele você é capaz de criticar!

-Pensando bem...: Deus, oh Deus, onde estás que não respondes/ em que lua, em que estrela Tu T´escondes/ embuçado nos céus... 


Dizeres de Castro Alves. 

Para quem gosta de poesia, por que não se inspirar no genial poeta e compor elegias, como derradeiro alento, em meio a tanta dor?

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em março/2011

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Bonjesino e a faculdade

www.b2agencia.com.br 
Bonjesino acredita que agora vai! 

Repudia a hipótese da implantação de uma faculdade em Bom Jesus continuar a ser falsa promessa de campanha, uma ladainha ridícula que já não desperta credulidade alguma. 

Lastreia sua convicção evocando o princípio de modernidade e ação empreendedora alardeadas por seus políticos, através  das quais desenharam o caminho do poder.

O raciocínio até que é racional e lógico: 

- Vê só, chefia, dá pra continuar suportando a humilhação de ainda enviarmos ônibus e mais ônibus abarrotados com os nossos jovens em direção a outros municípios na busca de um ensino superior? 

- Tem jeito não, Bonjesino. Uma incoerência da gota serena,  nosso lugar tão pródigo em gerar intelectos privilegiados ainda não possuir uma mísera faculdade!

- Não comece a criticar, chefia. Tenho certeza que as autoridades competentes, sensíveis e convergentes a essa necessidade, estão efetuando gestões junto ao Ministério da Educação.

- Ô, se tão. 

- Tão sim. Tomam as devidas providências para formar nossos estudantes aqui mesmo, o que disponibilizará oportunidades para mais pessoas e consequentemente melhorar o padrão cultural, que por sua vez vai balizar demais melhorias.

- Uau, Bonjesino! Onde diabos você está aprendendo a falar bonito assim, homessa?

O colosso esboçou um gestual de alguém emocionado e    disparou:

- Naquele comício, chefia. O candidato a prefeito falou tão bonito que cheguei a chorar...

- De emoção?

- Claro. Nunca vi ninguém tão preocupado com nossos estudantes, com nossas cidades, com nosso futuro. Gravei o discurso e até decorei as palavras...

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em fevereiro/1999

Bonjesino e a passarela

myartspage.blogspot.com
Bonjesino é parente do Eremildo. Só que este é um idiota, Bonjesino, não. 

É apenas crédulo ao extremo, ingênuo, de boa índole, otimista convicto e nutre profundo amor por Bom Jesus. 

Bonjesino é um mulato de quase dois metros de altura, que pesa uns 120 quilos.

Mas esta enciclopédia de músculos só atemoriza quem não conhece a mansidão de sua personalidade, que só altera perigosamente quando alguém ousa criticar os políticos do lugar.


Estes são amados, idolatrados e defendidos com unhas e dentes por Bonjesino. 

O ciclope acredita piamente nas promessas e na retórica lapidada de quatro em quatro anos.


E ai de quem ousa criticar seus políticos. 




Ainda que não careça temer as vias de fato, só o susto da voz tonitruante e do esgar de indignação do brutamontes é capaz de matar alguém de infarto.



Hoje Bonjesino fala da passarela (ligando o Bairro Silvana, em Bom Jesus do Norte, ao Lia Márcia, em Bom Jesus do Itabapoana), obra que o bom-jesuense dos dois lados aguarda desde priscas eras que bem longe vão (e bote priscas nisso).

Desde criança de molhar as calças eu comecei a contar umas 20 pedras fundamentais diferentes, lançadas por 20 políticos diferentes, em 20 eleições diferentes para a construção da passarela.
Mas agora Bonjesino diz que vai. Imagina com riqueza de detalhes a entrada triunfal da prefeita Daisy, de Bom Jesus do Norte, ao encontro do seu colega Carlos Garcia no dia da inauguração da passarela. 

Quase chora de emoção quando, no auge da fantasia, vislumbra os dois se cumprimentando efusivamente no centro dela em meio a fanfarras e fogos de artifícios.


Ele sente que há grande vontade política de ambos os lados, até porque conhece várias cidades com necessidade semelhante, onde os dirigentes disponibilizaram as obras para os seus, talvez até com menor poder econômico. 

Desta vez está certo que o assunto não vai virar letra morta, pois entende que o maior entrave não é tão grande assim, já que cimento e ferragens são materiais muito em conta. 

Além disso, com sua boa índole e arraigado regionalismo, julga que todos são iguais a ele, e entra em devaneios: 

- Sabe, chefia, aposto que os assessores da vereança do lado mais rico contribuirão com uma vaquinha.

- Hein?

- Isso que você ouviu. Sei que eles ganham o salário com muita dedicação, sangue, suor e lágrimas, mas acima de tudo amam o lugar em que vivem, da mesma forma que os vereadores, seus patrões. 

- Nisso você tem razão, Bonjesino. Amam mesmo!

- Sem ironia, chefia. Quer saber? Os vereadores de ambos os lados têm trabalhado tão intensamente em prol da obra...

- Ô, sem têm...

Nunca pensam apenas em si próprios, por isso vão colaborar!...

- Ô, se vão...

- Nossos prefeitos, então, quase não dormem, tamanha a preocupação em viabilizar a passarela...

- Ô, insônia...

- E tem mais, homem de pouca fé. Esse seu Ô vai virar Ah..., de admiração, principalmente quando construírem a terceira ponte...

- Ô..., digo, Ah..., Bonjesino, vá plantar batatas!, encerrei o colóquio já a uns 100 metros do gigante, preparando-me para engatar a quinta marcha!

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em fevereiro/1999