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quarta-feira, 27 de março de 2013

"Cema" de telefones, mas falar não sustenta; ou, podicema, que você saberá o que é lendo este texto

Piracema
A palavra piracema, proveniente do Tupi, significa cardume de peixes ou a época em que grandes cardumes arribam para as nascentes dos rios normalmente em busca da procriação.

É quase certo que "cema", que não consta no Aurélio, seja uma corruptela de piracema, um neologismo criado no imaginário coletivo e difundido por desconhecimento ou mesmo por comodismo. 

Piracema? Reduz-se para cema, que fica mais conveniente e praticamente não muda a eufonia.

Esta é a palavra que muito se tem usado hoje em Bom Jesus do Norte para traduzir uma satisfação interior da população a respeito das linhas telefônicas residenciais instaladas no município, que em abundante profusão (aí há uma redundância proposital) contempla a todos sem privilégios. 

É o que se anda dizendo por aí. Há cema de telefones na cidade.

Muito bem. Já não era sem tempo. Nada mais justo que essa cema venha favorecer uma cidade que sofria grandemente os dissabores da enorme carência de linhas que povoavam o sonho de muita gente desde priscas eras; 

Que venha corrigir uma distorção entre a disponibilidade do serviço em outros municípios em relação a este, o que se revelava uma postura de descaso e parcialidade; 



Que venha eliminar o constrangimento do convívio com orelhões primitivos, incapazes de completar uma ligação além das suas fronteiras, isso em pleno século 21 onde a humanidade ouve, via satélite, os sons de marte.

Mas agora, o estraga-prazeres: que contraste brutal há no Brasil! Já na época da Ditadura, que ninguém pode negar o mérito de também ter impulsionado com impressionante vigor as telecomunicações no país - emissoras de TVs e rádios apareciam às pencas, Chico Buarque comentava: 

"É televisão e futebol. Construíram estádios e essa rede impressionante de telecomunicações por todo o Brasil, e ao mesmo tempo uma degradação crescente em termos de educação e saúde". 

Passados mais de 30 anos essa constatação nunca esteve tão atual. Os antigos já diziam que "o sono sustenta". 

Nos dias atuais o governo talvez deseje nutrir o povo pela fala, o que se revela mais uma contradição dos nefandos contraditórios que mandam na nação já que, ao contrário de dormir, falar despende muito mais energia.

Bom Jesus do Norte é um exemplo desse contraste. Tem cema de telefones mas uma população paupérrima onde muita gente não terá condição sequer de pagar pelo novo serviço. 

Assim como o Plano Real, que prometia a todos um frango por dia e uma TV a cores em cada casa, e que revela agora a perversidade de sua intenção puramente eleitoreira, onde nem o frango existe e a TV, quando há, tem de ser usada com parcimônia devido a escassez de energia elétrica, o telefone massageia o ego e dá aos humildes, àqueles que elegem, uma falsa impressão de melhoria de vida. 

E parece sintomático que isso esteja ocorrendo às vésperas das eleições de 2002, como foi no Plano Real em 1994 e na paridade artificial da moeda frente ao dólar em 1998, que respectivamente elegeu e reelegeu a  consolidação da pobreza e da forma miserável de vida pela farsa e pela hipocrisia.

Ha cema de telefones no país e falta de comida, de saúde, de educação, de segurança, de emprego, de moradia, de energia elétrica, etc., etc., etc. 

Até mesmo a piracema periga sumir dos dicionários devido a poluição e a degradação ambiental, mas quem sabe os lexicógrafos venham a validar a podicema, novo neologismo que traduzisse os motivos da bancarrota do país? 

O chato é que somente uns poucos teriam a capacidade de lê-lo nas entrelinhas dos discursos de campanha, e muito menos conhecer o seu significado: políticos dissimulados certos da mamata.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em julho/2001

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Telefone ao menos uma vez...

...para 344333. Lembram-se da canção? Década de 1950/1960, na voz da grande Aracy de Almeida. 

Bons tempos, bons tempos. Rodava-se a manivela e do outro lado da linha fazia triiimmmm.

Já há quem se lembre com nostalgia da Telerj ..., da Telest. Como era bom... Alimentava-se o sonho de consumo de possuir um telefone, muitos sacrificando até o frango do fim de semana para poder juntar um caminhão de dinheiro durante longos anos e ... anham...!, passavam dias embevecidos a contemplar o reluzente aparelho analógico, de disco, mas que falava, ou melhor, falar mesmo, no duro, não falava, mas permitia que se conversasse à distância por seu intermédio.

Hoje os aparelhos são belíssimos, os mais modernos, o supra-sumo da tecnologia e do design, que cabem na palma da mão, e seus chips gradativamente menores, e em proporção inversa cada vez mais miraculosos fazem aposentar as velhas agendas, e pelo pique da remada mesmo, as nem tão obtusas secretárias eletrônicas encontrarão um fim triste e melancólico.



Aparelhinho tão popular e barato quanto um liquidificador (leio nos jornais que em algumas capitais já o distribuem gratuitamente, pagando-se apenas uma pequena taxa pela habilitação na operadora), mas o diabo é que não tem falado, ou melhor, não tem permitido que se converse através dele.


Aqui na terrinha observo pessoas portando garbosamente seus celulares ultramodernos com esponjas de aço (de 1001 utilidades) nas anteninhas, alguns com as faces vermelhas e as gargantas roucas de tanto gritarem na vã e desesperada tentativa de ouvirem e se fazerem entender. 

As reclamações são tantas que suplantam as relativas ao campeoníssimo Fernando Henrique. 

Contas astronômicas constando ligações para localidades nunca antes imaginadas, linhas cruzadas, conversações bruscamente interrompidas, aparelhos que "engolem" os créditos no melhor estilo dos malandros orelhões comedores das fichas de antigamente, e o pior: ninguém se entendendo:

- O QUÊ, MULHER? F-A-L-A  A-L-T-O. A galinha da vizinha? AHN? A gatinha na cozinha? Deixa pra lá. OLHA, COMPRA O PEIXE. É, P-E-I-X-E. AHNNN? PODE SER GAROUPA, NAMORADO, O QUE TIVER. 

- NAO TEM NENHUM? NEM PIRARUCU? NÃO, NÃO. O QUE É ISSO???!!! BENHÊ, NÃO ESTOU MANDANDO VOCÊ TOMAR... NÃO AMOR, PIRARUCU. PEIXE.

Alto risco o desse casamento, assim como negócios não realizados, pessoas passando fome por não conseguirem falar com a pizzaria, namoros desfeitos e mesmo requisição de serviços essenciais como hospitais, bombeiros e polícia inteiramente prejudicados pelo "mudão" ocorrido há poucos dias quando da mudança dos números de discagem.


E a culpa foi nossa, lembram do que o disse o sujeito da Telemar? Não devíamos ter ido com tanta sede ao pote testar os novos números; a Ana Paula Arósio, aquela gracinha, alardeava que era para fazermos o 21 mas não entendemos direito o espírito da coisa.

Não atinamos para a sutileza do anúncio, que talvez quisesse nos incentivar a não ficarmos jogando conversa fora ao telefone, mas ao invés disso, inventarmos outra posição numérica para nossa melhor interação sexual, para variar um pouco dos conservadores dois números 6 (um deles, invertido). 


Ou não era bem isso? Com certeza esse pessoal do 21, do 31 (171 lhes cairia melhor) não iria simplificar algo que podia complicar.

Mas como se diz que em tudo há um lado bom, resolvi tirar proveito desse caos. 


Estou trabalhando nuns livrinhos de autoajuda que me renderão bons lucros e terão muita utilidade para os brasileiros. 

Ainda não decidi quais serão os títulos, mas estou pensando seriamente neste: " Como construir seu próprio telégrafo, passo a passo". Ou este: "Noções básicas de sinais de fumaça em dez lições". 

O problema é que não consigo me comunicar com os índios para adquirir o know how. 

Os celulares deles chamam, chamam ..., mas não respondem!
Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em agosto/1999