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Mostrando postagens com marcador Chico Buarque. Mostrar todas as postagens
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sábado, 30 de março de 2013

A ditadura da democracia; ou, nem sempre a maioria está com a razão

Carlito Maia (fevereiro/1924 - junho/2002: "Não tolero a
ditadura de um sobre todos, nem a de todos sobre um
Como é imperfeito um dos mais básicos e elementares preceitos democráticos: o de que todos devem ser governados por alguém escolhido pela maioria! 

Isso só deveria ocorrer quando essa dita maioria tivesse a noção exata da amplitude e da complexidade dos seus problemas; tivesse o conhecimento pleno dos seus direitos e deveres; fosse esclarecida o suficiente para poder discernir pelos atos, palavras e atitudes quem é quem ou quem teria condições éticas e morais para influenciar o seu destino.



E bem verdade que o mundo, hoje, passa por uma séria crise de homens bem preparados, de inteligências persecutórias de ideais, planos e projetos que visem ao  beneficio das pessoas. E mesmo que o Brasil não escape a esse deserto de bons nomes, confesso que gostaria de ter qualquer outro a influenciar a minha vida pelos próximos quatro anos, até porque prefiro pecar por ação que por omissão.


Não quero ser inexoravelmente, sem arreglo, governado por alguém que não desejo, por alguém em quem há pouco menos de quatro anos depositei todas as minhas esperanças num futuro melhor para mim e meus compatriotas. 

Fomos traídos quando ele nos prometeu, e com uma desfaçatez impressionante, tergiversou e não cumpriu nada que estava simbolizado na sua mão calejada de quatro dedos que, para mim, era mais idealista do que a antecessora completa, com o mindinho e eivada de autênticos brilhantes. 

Não direi que o povo votará no próprio carrasco, como disse o próprio Lula quando perdeu a última para o FHC. 

Mas diria que sua reeleição será produto da mais pura farsa, de um engodo mirabolante empurrado de forma brutal e impiedoso nas goelas da maioria dos seus eleitores, os menos esclarecidos. 

Estes, em sua inocência, acreditam que o bolsa família é decorrente da mais criativa engenharia político/econômica. Não lhes é dado, claro, a chance de entenderem que pagarão (pagaremos) caro pela esmola. 

A sinopse do horrível filme de terror que nos aguarda na segunda sessão assistimos por aí diariamente, e o mais terrível é que essa síntese está sendo interpretada como a mais sublime e emocionante história de amor, numa inversão de valores espantosa. 

A mansidão e a brandura da maioria que dá a Lula números generosos nas pesquisas decorrem do desconhecimento de que o Brasil navega em mares calmos, antes pela conjuntura financeira internacional do que pela competência do governo, que não sabe o que significa competência ou pensa que é apenas viajar em avião de US$ 60 milhões, comprar deputados e condecorar com a mais nobre honraria o tal do Severino Cavalcanti. 

Nunca um presidente brasileiro foi tão beneficiado por tamanha estabilidade mundial. 

Ainda assim os criminosos juros reais “neste país” estão na estratosfera de 12% ao ano, contra 11% do governo anterior, que atravessou oceanos revoltos de crises e mais crises, como por exemplo a quebradeira da Rússia. 

Banqueiros brasileiros, podem crer, serão os mais ardorosos defensores desse continuísmo revoltante!

Vade retro! Por onde anda a oposição, mesmo a do Enéias ou a da Heloísa, que não lê para o povo o que ele é incapaz de compreender? Cadê o PSDB, o PFL, que apostaram num Lula definhando até morrer em outubro? 

Por onde anda boa parcela de nossos pensadores, de nossos intelectuais? Estaria purgando com o silêncio a furada do engajamento? Liguem não, errar é humano. 

Este silêncio todo nos atordoa, como diz a música. E o pior e que atordoados não permanecemos atentos, ao contrário do que o Chico disse noutra época. 

Compreendam, e difundam, que neste céu de brigadeiro econômico o Brasil deveria desfrutar de um crescimento de 7%, 10%, e não apenas se contentar em ser o penúltimo do mundo. 

Qualquer barnabé que honestamente desejasse governar para o povo e não para “a zelite” faria melhor. Bom Jesus do Norte mesmo, Calçado, Apiacá e o Espírito Santo como um todo estão bem graças a seriedade de Paulo Hartung com o auxílio do Governo Federal?

Isso não é nada se considerado o cenário altamente favorável em que Lula surfa. Precisamos parar de nos contentar com pouco! 

Como Carlito Maia, não tolero a ditadura de um sobre todos, nem a de todos sobre um.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em fevereiro/2006

quarta-feira, 27 de março de 2013

"Cema" de telefones, mas falar não sustenta; ou, podicema, que você saberá o que é lendo este texto

Piracema
A palavra piracema, proveniente do Tupi, significa cardume de peixes ou a época em que grandes cardumes arribam para as nascentes dos rios normalmente em busca da procriação.

É quase certo que "cema", que não consta no Aurélio, seja uma corruptela de piracema, um neologismo criado no imaginário coletivo e difundido por desconhecimento ou mesmo por comodismo. 

Piracema? Reduz-se para cema, que fica mais conveniente e praticamente não muda a eufonia.

Esta é a palavra que muito se tem usado hoje em Bom Jesus do Norte para traduzir uma satisfação interior da população a respeito das linhas telefônicas residenciais instaladas no município, que em abundante profusão (aí há uma redundância proposital) contempla a todos sem privilégios. 

É o que se anda dizendo por aí. Há cema de telefones na cidade.

Muito bem. Já não era sem tempo. Nada mais justo que essa cema venha favorecer uma cidade que sofria grandemente os dissabores da enorme carência de linhas que povoavam o sonho de muita gente desde priscas eras; 

Que venha corrigir uma distorção entre a disponibilidade do serviço em outros municípios em relação a este, o que se revelava uma postura de descaso e parcialidade; 



Que venha eliminar o constrangimento do convívio com orelhões primitivos, incapazes de completar uma ligação além das suas fronteiras, isso em pleno século 21 onde a humanidade ouve, via satélite, os sons de marte.

Mas agora, o estraga-prazeres: que contraste brutal há no Brasil! Já na época da Ditadura, que ninguém pode negar o mérito de também ter impulsionado com impressionante vigor as telecomunicações no país - emissoras de TVs e rádios apareciam às pencas, Chico Buarque comentava: 

"É televisão e futebol. Construíram estádios e essa rede impressionante de telecomunicações por todo o Brasil, e ao mesmo tempo uma degradação crescente em termos de educação e saúde". 

Passados mais de 30 anos essa constatação nunca esteve tão atual. Os antigos já diziam que "o sono sustenta". 

Nos dias atuais o governo talvez deseje nutrir o povo pela fala, o que se revela mais uma contradição dos nefandos contraditórios que mandam na nação já que, ao contrário de dormir, falar despende muito mais energia.

Bom Jesus do Norte é um exemplo desse contraste. Tem cema de telefones mas uma população paupérrima onde muita gente não terá condição sequer de pagar pelo novo serviço. 

Assim como o Plano Real, que prometia a todos um frango por dia e uma TV a cores em cada casa, e que revela agora a perversidade de sua intenção puramente eleitoreira, onde nem o frango existe e a TV, quando há, tem de ser usada com parcimônia devido a escassez de energia elétrica, o telefone massageia o ego e dá aos humildes, àqueles que elegem, uma falsa impressão de melhoria de vida. 

E parece sintomático que isso esteja ocorrendo às vésperas das eleições de 2002, como foi no Plano Real em 1994 e na paridade artificial da moeda frente ao dólar em 1998, que respectivamente elegeu e reelegeu a  consolidação da pobreza e da forma miserável de vida pela farsa e pela hipocrisia.

Ha cema de telefones no país e falta de comida, de saúde, de educação, de segurança, de emprego, de moradia, de energia elétrica, etc., etc., etc. 

Até mesmo a piracema periga sumir dos dicionários devido a poluição e a degradação ambiental, mas quem sabe os lexicógrafos venham a validar a podicema, novo neologismo que traduzisse os motivos da bancarrota do país? 

O chato é que somente uns poucos teriam a capacidade de lê-lo nas entrelinhas dos discursos de campanha, e muito menos conhecer o seu significado: políticos dissimulados certos da mamata.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em julho/2001