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Mostrando postagens com marcador Rio Itabapoana. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 29 de março de 2013

Rio Itabapoana - a lenta agonia

Itabapoana: a poucos metros desta prainha pestilenta,
a captação da água que o bom-jesuense bebe
Tâmisa. Rio do sul da Grã Bretanha. Banha várias cidades inglesas, sobretudo a capital, Londres;  

Sena. Banha  a maior parte da bacia Parisiense (776 km), abrangendo 78.650 km2 de bacia fluvial. 

Estes dois rios, os mais notabilizados do mundo, foram salvos por uma consciência de preservação também notável. Eram, num passado não muito distante, os mais poluídos da Europa.

Hoje podem-se até banhar-se em suas águas sem  risco de contaminação. O grande esforço conjunto entre governos e populações foi o fator determinante para a salvação daqueles importantes mananciais, fruto da mais óbvia constatação: ninguém passa incólume nem fica impune pela agressão à natureza. 

Não se tratava meramente de uma questão de inteligência ou generosidade, era mesmo uma questão da própria sobrevivência daqueles povos.



No Brasil essa consciência é um sonho distante. Governos e sociedade, salvo raríssimas exceções, não se dão conta do futuro sombrio - e mais rápido do que supõem que nos aguarda quando da estrangulação total desse sistema vital à vida, mas de finitude cientificamente comprovada. 

O  caso do famoso Rio Tietê, que corta ao meio a maior megalópole sul-americana reflete bem o descaso do Brasil. 

Desde o  governo paulista de Laudo Natel - e lá se vão décadas que os políticos utilizam a imensa cloaca em que se transformou o Tietê para suas demagógicas promessas de campanha, colocando a despoluição do rio dentro de programas meramente eleitoreiros, que hoje em dia não  convencem ao mais ingênuo eleitor.

O nosso Itabapoana mesmo parece ser vítima de rompantes  inconsequentes de burocratas em suas escrivaninhas assépticas, degustando  legítima água mineral Perrier e efetuando elucubrações mentais de como justificar seus gordos salários. 

O  Projeto Managé parece ter saído de uma dessas pranchetas, em verdade tão bem teorizado que a princípio  parecera algo sério e profundo. Qual nada! Só teve o mérito de ter sido concebido para um pseudo funcionamento em consórcio com os municípios adjacentes aos 264 km de seu leito, talvez para confundir posteriores questionamentos sobre o seu fracasso, pulverizando o ônus da culpa.

Absolutamente nada de bom aconteceu ao velho e carcomido Itabapoana nestes 3 anos de programa, exceto aos que confeccionam os conhecidos cartazes que ficam estrategicamente colocados nas entradas e saídas dos municípios como marketing político de cada prefeito, de cujas disposições para as medidas práticas são tão falsas quanto uma nota de 3 reais.

Não é justo no entanto que se debite unicamente ao poder público o estado de coma do Rio Itabapoana e de tantos outros em cruel agonia neste imenso Brasil. Nem tampouco culpar esta ou aquela comunidade, um ou outro município ribeirinho. 

Todos temos uma parcela de responsabilidade por ação ou omissão, pela  maneira  imediatista de encarar a vida como se não houvesse o amanhã. Quantos dos que estão lendo agora estas linhas não hesitariam em despejar seus excrementos na mesma fonte que lhes fornece o elemento vital à manutenção da sua própria vida? 

Quantos terão se contentado com promessas espúrias de políticos em épocas de campanha, sem mover uma palha para cobrar-lhes medidas práticas e emergenciais para pôr termo à cruel agonia dos nossos outrora límpidos e saudáveis mananciais hídricos? 

Quantos não terão o egoísmo de pouco se lixar com as gerações vindouras que desventuradamente, sem nenhuma culpa deliberada, estão fadados a contemplarem com a garganta sedenta e a pele esturricada, os derradeiros milionários em suas  mansões cinematográficas, com os  rostos diplomáticos, sorverem em canudinhos de ouro, em frenesi, as últimas gotas de água potável do planeta?

Autor: José Henrique Vaillant - pulicado em outubro/2000

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Culpados somos todos nós

ioneelev8.files.wordpress.com
Que início de ano infernal! Terras deslizam em Apiacá causando destruição; barreiras enterram vivas quatro pessoas em São José do Calçado; 

Enchentes mostram sua face assustadora nas duas Bom Jesus não uma, nem duas vezes, mas três, que é para não haver dúvidas quanto suas sinistras intenções.

O velho filme impõe sua odiosa reprise ad nauseam, sempre tão igual e a cada vez mais sacrificante de aturar com aquele cenário sombrio de mulheres e homens com seus filhos e alguns pertences fugindo da calamidade, sabendo que dali a um ano, ou menos, a saga se repetirá irremediavelmente.


Ao redor de tudo, um inimigo incrivelmente pequenino para o grau de periculosidade que ostenta faz suas incursões perversas nos corpos humanos para inocular-lhes a terrível dengue. 


É a alegoria mais macabra do bloco do horror, o arremate triunfal de uma Natureza esgotada, extenuada pelo descaso e pelos crimes ambientais que se perpetuam em nome de um progresso insano porque impossível de ser sustentado.

Culpados? Todos nós. Tomem-se como exemplo as cidades de Bom Jesus, num espraiar para todo o mundo subdesenvolvido, ignaro e autocriminoso. 


Um joga o lixo em qualquer lugar, outro deixa seu terreno descuidado. 



E não há autoridade! E não há quem se indigne! E não há quem mexa o traseiro um milímetro para alguma ação objetiva a partir do tsc, tsc, tsc, do gesto resignado e tímido de discordância que um ou outro manifeste.



Esgotos são despejados ao natural diretamente no pobre Itabapoana, com suas margens devastadas pela ocupação irregular e demente. 

Raros são os trechos que o outrora fundo Itabapoana não "dá pé". 

Em épocas de estiagem ele chega a se transformar,  em alguns pontos, de um caudaloso e impávido manancial em priscas eras que bem longe vão, num melancólico e ridículo laguinho. 


A fina lâmina d´água, com aquela lama sórdida, sobeja, quase cristalizada a rodeá-la, é como um lembrete da natureza aos bom-jesuenses e a todos os povos de maneira geral: em pouco tempo, insensatos, vocês verão! 

As desgraças que hoje convivem serão consideradas dádivas celestes em comparação com a sede. 


Torçam para que não haja vida após a morte: vocês estariam condenados a contemplar seus descendentes com as gargantas esturricadas a mirarem os céus com olhar canino de súplica!

Desastres naturais, fenômenos da Natureza são registrados desde que o primeiro bípede deixou seu rastro neste Planeta Azul. 


Ninguém pode ser culpado por isso, mas que devam existir quem se responsabilize pela tarefa de enfrentar as calamidades, aí sim. 

É para isso que existem governos, ao menos em tese. Mas qual! O Executivo nacional culpa os estaduais e os municipais, que por sua vez culpam o nacional. 


E o povo que contribui com seus tostões para conservar-lhes os milhões também se isenta da responsabilidade, só faltava mais essa... 

Medidas corretivas e preventivas, nem pensar. Planos de ocupação ordenada, projetos vigorosos e objetivos de recuperação e restauração dos ambientes naturais, então, é delírio de sonhadores. 


Como se ousa mencionar semelhantes coisas se nem o bueiro da esquina pode ser "desconcretado" por "falta de verba"? 


O louco que pensar semelhante asneira é capaz até de achar que o dinheiro público deve ser usado para coisas públicas... 

Um abilolado no mundo da Lua!

A natureza vai, assim, reagindo contra os excrementos sólidos de nossas almas e nossas ignorâncias líquidas. 


E seja o que Deus quiser!

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em fevereiro/2007

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Carta aos meus tetranetos

QUERIDOS

Estou redigindo esta carta, amados tetranetos e tetranetas, em maio de 2007, esperando que no momento em que vocês puderem lê-las e interpretá-las tenham a capacidade e a condescendência para perdoar.

Desculpem-me, desculpem-nos. Sua pele esturricada e as gargantas sedentas são frutos de ignominiosos crimes que a minha geração cometeu contra vocês. 


O alimento sintético que vocês engolem em cápsulas, por inexistência de produtos animais e vegetais que a Terra estéril não foi capaz de sustentar, é nossa culpa exclusiva, pela degeneração ambiental que promovemos. 

O oxigênio que seus pulmões buscam desesperadamente no ar rarefeito da sua era de horror, fomos nós que praticamente o eliminamos da face do Planeta ao devastarmos nossas florestas. 


Seus corpos esquálidos, cobertos de chagas por doenças trazidas pelo sol inclemente, abrasador, são o preço de nossa insensibilidade e egoísmo, quando jamais pensamos para além de nossos umbigos, de que a vida haveria de continuar após nossa injuriosa existência; matamos impiedosamente os mananciais hídricos e tudo o mais que respaldava a vida!

Ah, crianças, que já nem mais possuem papilas gustativas por serem absolutamente desnecessárias. Como explicar para vocês o sabor de um bife com batatas fritas? A delícia de um pudim de leite ou um angu com taioba? 

E como explicar-lhes a beleza de uma flor, o canto mavioso de um pássaro, as estripulias caninas e felinas, os verdejantes vales? 

Vêem este Rio Itabapoana seco e empedrado? Pois é, meus queridos, podem acreditar que seu tetravô nadava nas águas dele quando criança, pescava piaus, cascudos, bagres e lambaris.  

O peixe nem tinha muito valor, tão grande a proliferação!

Certamente que os regimes de governo de vocês são terrivelmente autoritários, ditatoriais, pois só dessa forma vocês podem lograr sobreviver no cenário sinistro da desordem e da discórdia pelas disputas desesperadoras por um copo d'água ou uma sombra, somente propiciada por coisas inanimadas. 

Mas aqui, agora, filhos dos filhos dos filhos dos meus filhos, vivemos a plenitude da liberdade civil e da fartura, sem possuirmos o merecimento de tê-las.

Construímos casas na beira dos rios destruindo sua mata ciliar; despejamos nossos excrementos e nossos rejeitos a cada dia mais intensos diretamente nas águas; deixamos lixo e restos em qualquer lugar: nas ruas, nas praças, nos jardins.

Depois a chuva abençoada vem e os joga no rio, que não pode lhes servir porque não resistiu ao martírio. 

Desculpem-me, desculpem-nos. Nossos países de hoje têm recursos de sobra, mas não têm líderes sinceramente preocupados com vocês, do futuro. 

Não possui estadistas que pensem um palmo além de seus próprios interesses pessoais, de seus egos assustadoramente inflados. 

E vocês, queridos, carregam o fardo cruel dessa ignomínia! 

Só para exemplificar a natureza das consciências globais dos habitantes do nosso ainda lindíssimo Planeta Azul, agora mesmo tivemos aqui em nossa região uma tal de Descida Ecológica no Rio Itabapoana, proporcionada por uns poucos sujeitos mais sensíveis que pensaram poder, com o gesto, amplificar o rouco gemido de dor do Itabapoana, a prenunciar o que vocês desgraçadamente vivenciam, que é a contemplação do seu cadáver. 

Os abnegados barqueiros em seus barcos (vocês sabem o que era um barco?) pensaram atrair uma multidão para vê-los remarem, e com isso despertar a consciência, acordar a sensibilidade para a necessidade urgente urgentíssima de se estancar a hemorragia do rio. 

Foi de pasmar! Quase ninguém apareceu. 

E só um dos quase 200 vereadores (vejam nos livros de História o que era um vereador e um Poder Legislativo) que representam as populações dos 18 municípios que se servem do rio participou do esforço, que vocês sabem, desoladamente, ter sido em vão. 

Queridos tetranetos, vou ficando por aqui. 

Deixo-lhes a mancha de minhas lágrimas neste papel, por saber que vocês não podem vertê-las apesar das lancinantes dores morais e físicas que sentem. 

E humildemente rogo-lhes: desculpem-me, desculpem-nos a nossa pequenez.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em maio/2007