TEST

Drop Down MenusCSS Drop Down MenuPure CSS Dropdown Menu
Mostrando postagens com marcador Descobrimento do Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Descobrimento do Brasil. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de abril de 2013

Confesso que chorei. Ou, parafraseando o poeta, penso que chorei de amor tão docemente, que todo mundo pensou que eu cantava

Não, amável leitor, graciosa leitora. Não foi um choro convulsivo, com direito a soluços e olhos vermelhos. 

Apenas duas lágrimas furtivas me traíram a emoção no dia da inauguração da nova Praça Astolfo Lobo, em Bom Jesus do Norte. 

Neste dia comemoravam-se também os 500 anos do descobrimento (ou achamento, como queiram) do Brasil.

Ainda não alcancei os cinquentinha, uma idade que parece convencionada pelo inconsciente coletivo como exatamente o meio da caminhada de nós, mortais. 

Tenho "só" 46 e ainda não dobrei, portanto, a curva descendente que me tornará ao pó (assim espero), mas mesmo com tão parcas primaveras ainda peguei um tiquinho de noções cívicas e ufanismo pela pátria, ensinados pelas escolas aos infantes de minha geração. 



Naqueles belos tempos, de gostosa nostalgia (assumo), como era empolgante perfilar em posição de sentido, com o peito estufado de brios e altivez, a mão postada e a contemplação do hasteamento do "Salve lindo pendão da esperança" por um dos colegas (emoção e glória supremas quando era eu o escalado para hasteá-lo) ao som do glorioso Hino Nacional.

Era realmente lindo, momentos de magia para o coração e a alma de uma criança que aqueles rituais puros, verdadeiramente sinceros e subliminares de amor ao torrão filial deixaram marcas indeléveis que nem mesmo o neoliberalismo no nefando molde que aí está conseguirá apagar definitivamente.

Fiz este preâmbulo com o intuito de revelar a mim mesmo donde se originou a ignição que impulsionou estas lágrimas represadas pela brutal realidade. 

Elas vieram de um cantinho nos recônditos da alma que ainda não se fecharam de todo para a esperança, e a chave que acionou a explosão veio na poderosa voz do senhor Ederaldo do Carmo, que naquele momento interpretava com um bonito estilo próprio o Hino Nacional Brasileiro. 

Naqueles breves instantes esqueci as mazelas de minha pátria-mãe; ignorei que meu presidente não sabe sequer entoar a canção-símbolo de seu país, muito menos intimidar bombas, fuzis e cassetetes que barravam a entrada dos verdadeiros donos da festa; 

Refreei minha indignação claudicante, mas ainda viva, de contemplar o acinte do deputado Luis Antônio Medeiros limpando a boca no Pavilhão Nacional, com transmissão via satélite para quem quisesse ver; 

Enevoou-se minha percepção da ridícula demagogia dos vereadores paulistas - muitos dos quais ratos que pularam do navio naufragado pelo desastrado capitão Pitta -, dando-se as mãos e afrontando o Hino-pátrio numa pseudocomemoração pela aprovação do processo de impeachment do chefe de sua própria gangue, salvo exceções.

Duas lágrimas. Sentidas. Mas antes que se tornassem copiosas tornei à realidade. Uma realidade cruel, infamante, onde milhões de brasileiros vivem como náufragos à deriva na réplica da Nau Capitânia, afundada antes de zarpar numa analogia casual cruamente realística do Brasil. 

A sensação é de vazio, o sentimento, de fracasso. Sou, somos,  quase todos, rejeitados pela pátria-mãe. Ela privilegia os latifúndios e não nos fornece ao menos um pedacinho de terra onde possamos cair mortos, entendendo aí a terra propriamente e também figurativamente; 

Seu marajanato é nutrido com a seiva impiedosamente desprendida de nossos âmagos. Somos uma manada fustigada pelo vil garrote do estrangeiro por intermédio de seus prepostos despersonalizados, gerados em teu próprio ventre, mãe.

Mãe, deixe-me chorar de alegria e emoção pelo sonhado reencontro aos teus seios com mais amores. 

Sê justa, embala-nos no mesmo regaço onde aninhas os poucos incluídos que nos torturam com o riso das hienas. 

Aí então, mãe, repetindo o poeta, eu chorarei de amor tão docemente, que todo o mundo pensará que eu canto.

Autor: José Henrique Vaillant - Publicado em maio/2000