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sábado, 23 de fevereiro de 2013

A implosão da mentira

Affonso Romano 
de Sant´Anna

Fragmento 1
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impunemente.

Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacionalmente
que acham que mentindo história afora vão enganar a morte eternamente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases falam. 

E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil

e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.


Fragmento 2
Evidentemente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricaturalmente. 

Mentem como a careca mente ao pente, 
mentem como a dentadura mente ao dente,
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem claramente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o linho. 
Mentem com a cara limpa e nas mãos o sangue quente. 
Mentem ardentemente como um doente em seus instantes de febre. 
Mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por lebre.
E nessa trilha de mentiras a caça é que caça o caçador com a armadilha.
E assim cada qual mente industrialmente,
mente partidáriamente,
mente incivilmente,
mente tropicalmente,
mente incontinentemente,
mente hereditáriamente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão bravamente
constroem um país
de mentira
-diáriamente.

Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente passam a mentira a limpo. 
E no futuro mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medievalmente.
Por isto, desta vez, não é Galileu quem mente.
Mas o tribunal que o julga heregemente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria, viajando pelo avesso, 

iludindo a corrente em curso, 
transformando a história do país num acidente de percurso.

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitentemente, ou me exilar
com Mozart musicalmente em harpas e oboés,
como um solista vegetal que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem, mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros cuja verdade do canto nos toca matinalmente.
Penso nas flores cuja verdade das cores escorre no mel silvestremente.
Penso no sol que morre diariamente jorrando luz, embora tenha a noite pela frente.

Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço de verdade que me resta. 
Onde transcrevo o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva se não explode pra fora, 

pra dentro explode implosiva.